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terça-feira, 5 de novembro de 2013

E agora? Agora, vou bagunçar em outro lugar!

Pra quem me acompanha faz tempo, peço desculpas por contar a mesma estória (com uma nova visão, mas a mesma). Pra quem chegou agora, seja benvindo, puxe uma cadeira, pegue uma xícara de chá e me dê 5 minutos do seu tempo. Porque eu quero falar do blog.

O Diário começou numa necessidade apressada de registrar a minha história de vida para os meus filhos, depois de um acidente que tirou a chance do primeiro pai deles fazer isso, um dia. Ele não estava mais aqui e não poderia contar mais nada. E se acontecesse a mesma coisa comigo? E se eu também não tivesse tempo? Como as crianças iriam saber de tudo que eu gostaria que elas soubessem? Assim, na pressa, comecei a escrever este blog.

Mas, o Diário virou terapia. Não só minha: mas de muita gente que passava por momentos ruins, por dores, por lutos, por lutas. Conheci e conversei com muitas pessoas que se identificavam com a minha aflição e que buscavam o que eu também buscava: referências. Alguém que te fizesse sentir que não estava só, que você não era a única no mundo a passar por aquilo, que existia vida depois da morte.

E, no meio dessa turbulência toda, a vida mudou, as crianças mudaram, eu mudei. O Diário foi só um espelho disso tudo. Mudou, também. Teve texto sobre amadurecimento, sobre escola, sobre decoração de festa, sobre campanha social. Não era mais só luto e dor. Já era sobre transformação! De repente, os textos eram lidos por 2.000 pessoas por dia e eu não tinha mais controle de quem eles tocavam.

Após alguns anos, quando a nossa vida foi mudar, de novo, a gente já tinha “torcida organizada”! Tínhamos AMIGOS virtuais, novos amigos reais, leitores de lugares que a gente nem imaginava... e todos torciam por nós!

Quando o H chegou (e chegou pra ficar – obrigada, Deus!), ele mudou tudo! Trouxe paixão e amor pras nossas vidas, acrescentou aventura, aumentou o número de crianças de casa, duplicou o número de casas pra gente morar, e mudou, de novo, o tipo de post e o nome do blog. Ele mudou a minha (a nossa) direção!

Se a arte imita a vida... pois é... a minha está uma bagunça, atualmente. Mas o MELHOR TIPO DE BAGUNÇA QUE EU PODERIA QUERER! Tenho um marido piloto de aviões que não conhece rotina, tenho 4 crianças lindas (que eu amo demais) com 4 idades e personalidades e necessidades e momentos de vida diferentes, tenho um papel novo pra desempenhar (o de madrasta), tenho uma família nova (e meus filhos têm 3 pares de avós), tenho um trabalho novo (pois é... até isso eu mudei), tenho hobbies novos (e resgatei os antigos), tenho assuntos novos. E eu preciso de um blog novo! Um lugar que não vai ser mais escrito por mim, pelo Guigo ou pela Nina, porque não somos mais só nós 3. Um espaço que não fale mais de coisas incomuns (tipo viuvez precoce), mas onde eu possa conversar com vocês sobre desafios, dores e amores mais normais. Um endereço de internet que reflita melhor a Miriane que eu sou hoje: mais completa, mais feliz, mais amada, mais mãe, mais madura, mais bagunçada!

E eu escolhi hoje, o dia do meu aniversário, pra fazer o blog novo “nascer”, também! Meu melhor presente seria você me fazer uma visita por lá, na minha nova casa virtual. Você vai ver que o novo blog será 1 Bagunça do tipo Deliciosa!!!



sexta-feira, 4 de maio de 2012

Como você mede seu tempo? (Diário da Mirys)

(daqui)
Há um tempo atrás, assisti um musical, num teatro de Sampa...e chorei horrores!!! Sério!!! Chegou no final, quando os atores descem do palco, cantando e batendo palmas, todo mundo naquele clima super festivo de "final feliz da história" e eu... chorando horrores!!! Mas eu chorava de alagar o coitado do teatro! Tanto, tanto, que um dos atores ficou com dó de mim, quando veio me cumprimentar, que me abraçou e não soltou mais (tá... verdade seja dita... EU agarrei o pobre moço, pra ver se controlava o meu choro. Mas tentava falar "vocês foram in-in-in-incríííííííííveeisbuááááaáááááá" e começava a chorar, de novo). Quem me lê faz tempo (ou me conhece), sabe que eu não sou dada a choros, não sou nada depressiva, nada baixo astral. Mas é que aquele teatro era LINDÍSSIMO!!!

(PS: atores finos fazem isso tá gente? Descem do palco e cumprimento os expectadores no fim da peça, provando que eles são humanos como a gente. Só que sensacionais! Só que bons pra caramba!!!)

Fato é que aquele espetáculo tinha uma música que eu nunca mais esqueci. Até porque a minha grande amiga G. me emprestou o CD do musical, no original, que ela tinha trazido dos States. Sorry G... seu CD está comigo ATÉ HOJE!!! E eu me lembro que sou uma péssima amiga, toda vez que o encontro na minha gaveta de CDs...

E vocês me conhecem com música, né? Fora alguns dias (meses! tá bom, foram meses. Eu assumo) tenebrosos na minha vida, onde eu queria distância de música e fotos, por motivos óbvios, eu VIVO A BASE DE MÚSICA! Poucas coisas me emocionam tanto!... Talvez um beijo bem dado, uma declaração de amor inesperada, uma lembrança "do nada"... mas esses são assuntos para outro post!

Voltemos à música do musical!!! (droga... vocês já perceberam que eu estou enrolada, hoje, não?) Ela dizia "como você mede o seu ano?"
Em dias?
Em meses?
Em minutos?
Em madrugadas?
Em xícaras de café?
Em muros que você derrubou?
Em pontes que você construiu?
Em verdades que você aprendeu?
Em números de risadas que você deu?
Em quantidade de dinheiro que você ganhou?
MEÇA EM AMOR!!!!!

E aí que, ultimamente, eu tenho pensado muito nessa música. E em tudo o que eu vivi, nos últimos dois anos e tralalá, desde o acidente que mudou a minha vida, a minha história, o jeito que eu vejo o mundo; que intensificou o meu jeito já intenso de me relacionar com as pessoas; que me deu medos que eu não tinha; que me deixou "sozinha", com uma multidão ao meu redor.

Então eu pensei e pensei e pensei e... querem saber??? Cansei de contar os dias em que eu chorei, as coisas de menino que eu consegui fazer "sozinha" (sem marido), os filmes que eu assisti na minha cama, as montanhas que ninguém (NINGUÉM) subiu por mim, as ladeiras que eu desci rolando, sem controle, os fundos de poço que eu toquei.

E resolvi dar uma chance a mim mesma e começar a contar o meu tempo em AMOR!

Naquele tipo de amor que me fazia tanta falta! Vou contar meus dias em beijos, torpedos, horas de telefone, surpresas, abraços, mensagens, presentes, jantares, risadas, garrafas de vinho, sessões de cinema acompanhada, declarações românticas, viagens, carinho no cabelo, etc e tal! "Se apaixona por mim?" é tudo de bom de ouvir, não é?

Eu sei que vocês não estavam acostumados com "essa" Miriane e que eu mudei "muito de repente". Mas... tá bom! É fato! Mudei! Assumo! Quero a vida mais leve, mais segura, mais emocionante, mais apaixonada, mais colorida, mais cheia de música, mais dividida, mais, mais, mais... Mas, vejam bem... essa é a MINHA vida! A de vocês, vocês podem medir do jeito que vocês quiserem... sem imposições, tá?


PS: a vida continua sendo minha, mas eu ADORO os pitacos de vocês (até porque... né?... ninguém vem com um super manual de instruções quando nasce dizendo "se você ficar viúva no meio do caminho, faça desse jeito que é o certo"... e não existem muitos exemplos por aí de pessoas em situação igual à minha - graças a Deus). Eu leio (todos!) os comentários, levo em consideração (todos!), mas me reservo no direito de ter a MINHA decisão final, ok? Sem traumas? Então, façam isso: escrevam pra mim! Que essa é a maior demonstração de amor que um blogueiro pode receber (amigos blogueiros me digam: é ou não é???)!

Se quiser ver o video, tá aqui. O musical se chama "RENT". Se tiver chance, ASSISTA!!! Essa é a capa do CD que eu roubei peguei emprestado...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Far Away... (Diário da Mirys)

I know... the lirycs are not mine... but they just explain how I feel right now... and it hurts... it hurts so badly... I know it was not my choice but I feel like I could do something to stay in the "plan A"... as if it was my fault that I´m trying to smile again... like "if I do anything, ANYTHING, I´m choosing to change my life"... it´s crazy...

"Just one chance, just one breath, just in case there's just one left
Cause you know that I love you... I have loved you all along
And I miss you, been far away for far too long
I keep dreaming you'll be with me and you'll never go
I stop breathing if I don't see you anymore

On my knees, I'll ask, one last chance for one last dance
Cause with you, I'd withstand, all of hell to hold your hand
I'd give it all, I'd give for us, give anything but I won't give up
‘Cause you know that I love you, I have loved you all along
And I miss you, been far away for far too long
I keep dreaming you'll be with me and you'll never go
I´d stop breathing if I don't see you anymore

I wanted, I wanted you to stay
'Cause I needed, I need to hear you say
That "I love you", I have loved you all along
And I forgive you for being away for far too long

So keep breathing Cause I'm not leaving you anymore
Believe it, hold on to me and never let me go
Keep breathing, hold on to me and never let me go"

... (video da música)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Na melhor parte da vida (Diário da Nina)

Domingo à tarde, a mãma estava deitada na cama dela, com um pouquinho de dor de cabeça, curtindo uma preguicinha, quando eu entro no quarto, com cara de curiosa...

"Mãmi, por que que o pápa tinha que morrer?"

A resposta foi a mesma de sempre: que ela não sabe, que esse era o plano de Deus e que Ele teria muitos planos bons pra gente, também.

"Mas, mãmi, por que que o pápa tinha que morrer bem na melhor parte da vida?"

Silêncio...

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A despedida... (Diário da Mirys)

Domingo, 24 de janeiro de 2010.

Depois de um tempo lá, sentada, ela resolveu que tinha que fazer alguma coisa. Ele tinha ido, mas outros tinham ficado. E podiam precisar dela. Seu pai e o marido da sua irmã (também médico) tinham ido ficar com o Fer. E ela foi cuidar de sua sogra. Estava preocupada com a pressão dela, com o coração, com o estado emocional, com tudo! E estava certa: sua sogra realmente precisava de ajuda. Foi até um enfermeiro ou médico da ambulância e explicou a situação. Ele disse que nada podia fazer, que eles teriam que esperar, por sabe lá quanto tempo, até uma próxima ambulância chegar, pois nenhuma das 5 que lá estavam podiam socorrer aquela senhora, naquela hora... Esperaram, a ambulância chegou, mas só poderia levar duas pessoas: sua sogra e o irmão dele foram os escolhidos. Pois ela achava que estava bem. E sua irmã, mais uma médica, poderia leva-la pro hospital... Quanta sorte ter tantos médicos na família...

No caminho, completamente em transe, ela começou a se lembrar de algumas pessoas que precisavam ser avisadas: seu sogro (meus sais, como falar isso pra ele?!), amigos mais chegados, irmãos, seu chefe/amigo...pegou o celular e ligou uma vez para cada pessoa. Com quem conseguiu falar, falou.

No hospital, pediu para ser a última a ser examinada, pois achava que estava "normal". E estava. Não precisou de remédios, calmantes, controladores de pressão, anti-depressivos, nada. Nada... E ela ficou tão brava com ela mesma!!! Não conseguia chorar, não precisava de médicos, não tinha se alterado em nada. Como? Como, com uma notícia daquelas, ela não se alterara??? Como, como, como...

Chegou a duvidar do seu amor. Da sua sensibilidade. Da sua preocupação com o outro. Da sua maternidade. Da sua humanidade, mesmo!

Lembrou de seus pequenos e pediu que a levassem pra casa de sua mãe. Nem precisou virar a esquina para já perceber a quantidade de carros estacionados em toda a rua. Passava da meia-noite e muitos amigos estavam lá... Com os olhos, buscou sua mãe, a abraçou e só ouviu: "obrigada, filha. Obrigada por ser obediente ao seu marido...". A mãe dela sabia: sabia que, se ela tivesse ido junto, ela também estaria socorrendo as pessoas, ela também correria riscos, ela também estaria em perigo. E ela pediu para ir junto com ele. 4 vezes. E ele disse não. E ela obedeceu.

Não falou com mais ninguém e entrou para ver seus pequenos, que assistiam um filminho na sala, com um de seus tios. Achou melhor só olha-los pelo vidro e não atrapalha-los. Logo dormiriam. E não precisavam dormir com uma notícia daquelas. Eles só tinham 5 e 3 anos... Como se dá uma notícia dessa a crianças tão pequenas? Contar tudo, naquela hora, parecia a pior opção. Ela resolveu gerenciar sua dor, organizar o que precisasse ser organizado, chorar se conseguisse, e contar tudo no dia seguinte.

Entregou seu celular e o celular dele para uma das suas irmãs. E pediu para avisar todos os meninos das listas. Porque ela tinha amigas grávidas e/ou com bebês em casa. Não se dá uma notícia dessas, nesse horário, para mulheres grávidas, não é? Mas, os amigos precisavam ser avisados... muitos moravam longe e precisariam viajar logo cedo, no dia seguinte, se quisessem se despedir.

Quando todos foram embora, ela deitou na sala, mas não conseguiu dormir. Ela se sentia minúscula: nem dormir, conseguia! Como meia hora podia transformar vidas... pra sempre... irremediavelmente...

Mas, o sol nasceu. E esse foi o único pensamento que ela se lembra de ter tido, depois de ter entregue os celulares e virar um "zumbi", que cumprimentava amigos, recebia abraços, falava coisas, mas nada disso era consciente. "O sol nasceu. De novo. E vai nascer amanhã. E depois de amanhã... E depois de depois de amanhã..."

O telefone tocou e como ela era a única pessoa acordada, atendeu. Era da funerária. Perguntando se o caixão ficaria aberto ou fechado. Então, a ficha dela caiu... Aberto, por favor. Ela precisava se despedir... Acordou seu pai e fez um pedido tão absurdo, daqueles que só se faz para os pais, mesmo, quando você tem certeza de que é muito amada e vai ser compreendida: pediu que ele levantasse (depois de ter passado a noite quase toda no IML) e fosse pra funerária, enfaixasse o que precisasse ser enfaixado, arrumasse o que precisasse ser arrumado, para que o caixão ficasse aberto. E seu pai foi...

Era domingo. Com um sol lindo e pacífico, daqueles típicos de domingo, quando só se espera a vida passar tranquila. Daqueles que te convidam pra ir na igreja, que envolvem deliciosos almoços de família que terminam em sorvete, que são propícios para uma tarde na beira da piscina. Mas, tudo aquilo que era tão comum em todos os outros domingos, não aconteceria nesse.

Ela foi pro velório acompanhada de alguns queridos. As crianças ainda dormiam. Ela pediu para entrar na sala sozinha e assim aconteceu. Eles conversaram, só os dois, pela última vez. E ela prometeu cuidar das pessoas que eram queridas para ele, no lugar dele, do melhor jeito que ela conseguisse. Porque, na vida, é só isso que importa: as pessoas. E, naquele momento, isso era ainda mais claro!...

Abriu as portas. Dividiu com os outros o seu amor. Abraçou muitos. Consolou vários. Até mesmo lhe perguntaram, pessoas amigas da família dele (que não a conheciam bem), mais de uma vez, quem era a viúva. Pois ela não parecia se encaixar no perfil... Cuidou e foi cuidada. Quando soube que as crianças tinham acordado, fez uma reunião de família para saber o que fazer e como contar. Pai, mãe, irmã, irmão, cunhados.

De repente, no meio daquele turbilhão de emoções, onde ela se sentia como alguém que assiste um filme e fica torcendo pra mocinha se dar bem no final, ela saiu da sala - quando voltou, leu o nome dele na porta... e o seu, logo abaixo "deixa viúva a Sra. Miriane..."

E chorou. E se contorceu de dor. E se curvou. E chorou um daqueles choros incontroláveis que dão a sensação de que vão durar pra sempre...

Viúva. Viúva... Agora ela era viúva. Com 35 anos de idade: viúva. Mãe de uma criança de 3 anos: viúva. A mais velha de vários irmãos tão novos: viúva. Alegre, alto-astral, positiva, "poliana" até: viúva. Não combinava! Simplesmente, não combinava!!!! Não combinava...

Ela nem sabe quando parou de chorar ou quem a levantou do chão onde o seu corpo se curvou e ficou. Só se lembra que toda vez que lia aquela placa, o choro voltava, incontrolável, entorpecedor, até a cabeça latejar, faltar ar nos pulmões, o corpo desistir...

Dentro da sala, ela cantava. Pra ele. Ela conversava. Ela sorria. Fora da sala, em frente àquela placa, ela não existia. Era só dor!...

Até que fizeram sua última caminhada juntos. E choveu... E parecia filme... E ela foi pra casa dos seus pais (que foi pra onde a levaram, pois ela não tinha condições de pensar) e começou a viver o resto de sua vida...

(PS: quer ler a parte feliz desta história? Está aqui, na série "era uma vez")

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A história do acidente

Jaú, 23 de janeiro de 2010.

Eles acordaram cedo, naquele sábado, como de costume. Tinham visitas da família dele em casa. Ficaram na cama por umas horas, ainda... se beijando, se abraçando, se observando, matando as saudades, colocando a conversa em dia. Ela morava em outra cidade, há um mês, por causa do novo trabalho, e ele ficava na cidade antiga. Só se viam à partir das sextas, à noite, até o domingo, à tarde.

Mas isso iria mudar: eles tinham ido pra cidade nova juntos, na semana anterior, para procurar uma casa. Aproveitaram as férias das crianças e as deixaram com a avó. E tiveram sua "semana de namorados"... Resolveram a vida: entregaram trabalhos atrasados, programaram projetos da igreja, alugaram a tal casa, matricularam as crianças numa escola próxima. Voltaram pra casa com sensação de dever cumprido. Conversando. Eles conversavam sempre. Sobre tudo! Sempre tinha sido assim: não eram só marido e mulher, eram melhores amigos.

Naquele sábado, estavam felizes e animados. A mudança sairia na próxima quarta. Era hora de despedir da cidade antiga e seguir para novos projetos. Agora, seriam só eles 4: pai, mãe, filho e filha. No lugar deles, na familia deles, no ritmo deles, na vida deles.

Então, ele quis comemorar! O que era estranho porque ela era "a social" e ele era "o reservado". Mas, ele sugeriu que se convidasse toda a família dela (que morava na cidade antiga, onde eles ainda estavam) para almoçar na casa deles, com a família dele, que já estava lá. O cardápio já estava decidido: comida chinesa pra todos - comida japonesa para ela, ele e o pai dela.

E assim se fez. Convidaram todo mundo. Pais, mães, irmãos, irmãs, cunhados, sobrinho. Quase todo mundo foi... E passaram uma tarde ótima! Brincaram, conversaram, comeram, fizeram competição de video-game, os netos ganharam historinhas contadas pelo avô, deitados na rede. Até resolveram que seria um bom dia para a estréia do brinquedo novo (de Natal) do filho: um helicóptero. E todos os meninos foram para a praça, que ficava na frente da casa, para colocar o helicóptero pra voar. Na última hora, a filha resolveu ir também, no meio daquele monte de meninos. Depois de um tempão, voltaram. E a menininha disse: "hoje é o dia mais feliz da minha vida!"

Realmente, era um dia muito muito bom. Tão bom que eles ficaram "almoçando" até às 8hs da noite. Quando ele decidiu que era hora de levar sua mãe e seu irmão de volta pra cidade deles, que ficava a poucos quilometros de distância. Trocou de roupas, deixou a roupa confortável e velhinha pendurada atrás da porta, pois voltaria muito rápido e aquela era sua vestimenta predileta para ficar em casa. Em meia hora, deixaria seus parentes na casa deles. E mais meia hora, estaria de volta. Pronto pra colocar suas roupas confortáveis, de novo, e aproveitar o restinho da noite de sábado.

Ela quis ir junto. Estava com saudades, pois eles tinham passado a semana toda separados! E eles estavam no esquema "namorados", naqueles dias: como só se viam de final de semana, ficavam grudados o tempo todo! Ela pediu várias vezes para acompanha-lo. Com as crianças. Sem as crianças. Se fossem só os 2, poderiam parar em algum lugar para namorar, na volta. Ele insistia para que ela ficasse. Ela já tinha viajado na sexta e viajaria, de novo, no domingo. "Fique Mirys. Vá pra casa da sua mãe, com as crianças, pra não ficar sozinha. Daqui a pouquinho eu já volto e passo por lá pegar vocês."

Quando ele deu um selinho nela para avisar que estava partindo (eles tinham essa coisa entre eles: nunca ir, chegar ou dormir sem um beijo. Por menor que fosse), ela fez o comentário tonto mais importante da vida dela: "Fer... você não escovou os dentes depois do almoço, escovou?" Coisa que só a intimidade de 11 anos de casamento permitia. "Ai, Mirys! Você encana com cada coisa, viu?.." Minutos depois, voltou na cozinha, para se despedir de quem estava lá - e dela, pela segunda vez. "Pronto. Escovei os dentes. Satisfeita?" "Ainda não. Agora, você me dá um beijo decente!.." E se beijaram como deveria sempre ser. E ele partiu.

Meia hora depois, na casa dos pais dela, o filho tomava banho e a filha assistia algum desenho pra crianças de 3 anos, abraçada na mãe. Quando o avô - pai dela - desceu correndo as escadas, falando muito alto pelo celular. Ele nunca fazia isso... era uma das pessoas mais calmas, e alegres, e tranquilas, e sensatas que ela conhecia. Até que ela ouviu o nome da sogra sendo falado. E disse pra sua mãe que devia ter acontecido alguma coisa... ela deixaria sua filhinha ali, seu filhinho no banho, e iria acompanhar seu pai, aonde quer que ele estivesse indo. Procuraram por outros adultos para acompanha-los, mas não encontraram. Pegaram o carro e foram pra estrada.

Eles sabiam que havia tido um acidente, mas o carro da família não estava envolvido. "Parece que foi bem perto de Bauru, Mirys. Na outra ponta da estrada. Tente avisar seu tio, que mora lá, para que ele vá até o local. Ele deve chegar antes da gente.", disse o pai dela. Ela tentou, tentou e tentou e não conseguiu avisar seu tio. Então, ligou para um grande amigo e pediu para que ele fosse até a estrada.

Um carro tinha sido abastecido num posto, no meio da estrada. E, ao invés de andar 400 metros e pegar o primeiro retorno, decidiu voltar, na contramão, por um quilometro, para chegar num distrito que existia no meio do caminho. Só que aquela era uma estrada grande. 2, 3 pistas de cada lado. Canteiro no meio. Pedagiada. Era absurdo alguém pensar em andar na contramão. Mas, aquele motorista pensou... Quando estava a poucos metros da entrada do vilarejo, ele bateu num primeiro carro, e num segundo, e num terceiro. Logo depois, 2 carros pararam no acostamento e os motoristas desceram para ajudar. O primeiro carro que tinha sido acertado só de raspão também conseguiu parar e seu motorista desceu pra ajudar. Um dos carros acertados pegava fogo... e as pessoas não conseguiam sair de dentro do veículo. Então, 3 homens tinham descido de seus próprios carros, levado seus extintores e apagado o fogo.

O marido dela ainda chegou a voltar em seu carro, pediu para seu irmão ligar para o socorro, pois as pessoas estavam feridas. Ele iria voltar para o carro queimado, tentar tirar as pessoas de dentro, junto com aqueles dois outros que estavam ajudando. Foi quando mais um veículo veio... e não viu um acidente daquele tamanho... nem os carros parados no acostamento... no meio de uma subida (depois de uma imensa descida)... e acertou a lateral do carro que estava sendo socorrido, atropelando os 3 homens que estavam salvando aquelas pessoas dentro do veículo.

Voltando para ela. Minutos depois de todo esse ocorrido, ela pegava a mesma estrada, com seu pai. Telefonava loucamente para seus tios, tentando falar com alguém. Porque se ele estivesse ferido e inconsciente, ela queria que tivesse alguém por lá, conhecido, que falasse para ele ficar tranquilo, que o acompanhasse a um hospital, que lhe avisasse que ela já estava chegando. Ela estaria ali! Com ele. É claro que ela estaria ali, com ele. Ela sempre estava com ele, nos últimos 15 anos da vida deles!

Quando passaram o posto policial, ela ligou pra emergência, para ver se tinha alguma informação. Até do lugar exato, pois ela não sabia a quantos quilometros da cidade dos pais dele o acidente tinha ocorrido. Ela só sabia que era mais pra Bauru do que pra Jaú (cidade deles). Ela perguntou pelos feridos e soube que "eram muitos". Ela perguntou por ele e foi informada que "eles não podiam precisar quem era quem no acidente e que tinham ambulâncias de três cidades diferentes socorrendo os feridos". Ela perguntou para qual hospital seria levados e o homem do outro lado da linha ficou mudo. Então, ela perguntou se ele poderia dizer, de maneira geral, qual era a situação daqueles que ele chamava de "vítimas envolvidas". E a resposta que ouviu foi "temos vítimas em todos os estados. Se é que a senhora me entende." Ela entendeu. Desligou. Quis tranquilizar seu pai: "pode ir, paizinho. Que o acidente é perto de Bauru. Mas já tem ambulâncias de 3 cidades por lá. As pessoas vão ser levadas para hospitais de Bauru, mesmo. E o meu amigo já está indo pra lá, ficar com o Fer, até a gente chegar."

Nessa hora, ela não se lembra, mas seu pai disse que ela fez uma oração, em voz alta. "Senhor, eu aceito. Se o senhor me devolver o Fer muito machucado, eu aceito. Se eu tiver que largar meu emprego para cuidar dele, por meses, eu aceito. Se eu tiver um marido sem um braço ou uma perna, eu aceito. Se ele ficar incosciente por meses, eu aceito." Deve ter sido qualquer coisa assim (porque, hoje, dois anos depois, ela não se lembra). Mas ela não incluiu em sua oração, em nenhum momento, a possibilidade de ninguém lhe devolver o seu marido. Isso não era uma opção. Qualquer outra situação, ela resolveria, aceitaria, gerenciaria. Mas, não te-lo mais, nunca mais, nem passou pela cabeça dela.

Quando estavam a quilometros do acidente, no início da descida que antecedia o local, ela já viu o "circo". Carros amassados, lá em cima da subida... carros parados no acostamento ainda com os pisca-alerta ligados... outros carros parados... caminhões bloqueavam o início da subida... ambulâncias... sirenes... gente. Muita gente. Eles pararam o carro do pai dela atrás dos caminhões e sairam correndo. Ela nem se lembra se fecharam o carro, mas ela tem a impressão de que largaram até as portas abertas. Ela avistou seu carro, parado do lado direito, com sua sogra e cunhado do lado de fora. "Paizinho, o senhor vai descobrir para qual hospital levaram o Fer e eu vou ver minha sogra". Afinal, seu pai era médico e era claro que os enfermeiros da ambulância dariam informações melhores a ele do que a uma "outra esposa agitada" que fica perguntando pelo marido, atrapalhando o trabalho deles. E ela conhecia sua sogra e seu cunhado - sabia que devido à idade dela, à doença dele, ao perfil dos dois, eles deviam estar precisando de ajuda, de alguém "forte" que dissesse "deixa que eu resolvo". Como ele fazia. Sempre. Ela queria fazer o papel que era dele, agora.

Ela chegou, viu que a mãe e o irmão dele não estavam machucados, e os abraçou. Ficaram os três abraçados, encostados no carro, orando (a mãe dele pediu que ela orasse "porque ela sempre era melhor nisso"), quando ela viu seu pai vindo correndo na direção deles. Ele corria! Deviam ser boas notícias, do tipo "vamos, rápido! Ele está no hospital X. Vamos para lá. Se apressem!". Eles abriram o abraço e encostaram os três, no carro, esperando o pai dela chegar. Foi quando, a poucos passos, ele parou de correr. Exausto. Chorando. Então, ela soube...

"O nosso menino se foi". Essas foram as palavras que mudaram a vida dela pra sempre. O pai dela abraçou os três, aquela família que também já era dele. A mãe dele gritava. As pessoas que estavam por ali, ajudando, vieram fazer parte daquele abraço, cheio de palavras de conforto. Mas, ela não conseguia respirar... Tinha muita gente ali, muito abraço, muitas vozes, mas nenhuma era ele, o abraço dele, a voz dele.

Então, ela foi mal educada como nunca tinha sido na vida. Empurrou todo mundo, explicando que não conseguia respirar, e foi se sentar, sozinha, na beirada do asfalto. Ela não conseguia chorar. Não conseguia... Ela não tinha perdido só o ar: tinha perdido o chão, as lágrimas, o sentido. Ela tinha perdido tudo. Tudo...

Foi nessa hora que ela sentiu uma mão no seu ombro. Olhou pra trás e viu seu amigo. Aquele pra quem ela tinha ligado para ele "acompanhar o Fer para o hospital e assegura-lo que ela logo estaria ali".

"G. Você viu? Era o Fer, mesmo?"
"Era, Mirys"
"E... ele ainda está aqui?"
"Está Mirys"
"Eu devo ir lá, ver?"
"Não Mirys. Não..."

E ela não foi.

(Essa história aconteceu há exatos 2 anos. Mas eu não tinha tido coragem de registrá-la, até agora. Parecia que se eu fizesse isso, ela ficaria real. Mas... ela já é real. Ela é real pra mim e pro Guigo e pra Nina há 2 anos. Nenhuma palavra que eu não escrevesse iria mudar isso. Então, resolvi compartilhar. Agora que já assimilei isso como parte da minha vida. Agora que eu ainda não entendo, mas já aceito. Para que outros tomem cuidado na estrada, para que não dirijam na contramão, nem corram, nem se distraiam trocando o som, nem "não vejam" o que acontece na sua frente... Se isso evitar que uma, apenas uma outra família passe por essa perda, já terá valido a pena.)

PS: hoje, estou fora do ar. Esta mensagem foi programada. Não vou responde-la, nem vou autorizar comentários, no dia de hoje. Hoje, o dia é meu e dos meus filhos. De celebrar a minha família LINDA que ainda está aqui. Responderei a todas as mensagens o mais breve possível, mas não hoje. Espero que entendam....

domingo, 22 de janeiro de 2012

Aquele abraço!.. (Diário da Mirys)

Eu sempre fui mais de beijos do que de abraços. Com as crianças eu até faço "ataque de beijos", aqui em casa, e nós saímos rolando. Eles riem e eu dou milhões de beijos estalados.

Mas, aprendi a valorizar um abraço. Eu nunca soube o que falar em velórios... porque não há, mesmo, muita coisa a se dizer. Quando eu não tinha muita intimidade com a familia que ficava, eu dizia "meus pêsames", "eu sinto muito" ou algo do gênero. Mas, quando era um amigo que sofria, eu era mais aberta e assumia que estava perdida: "eu não sei o que te dizer. Só vim te dar um abraço..."

Quando chegou a minha vez de ser "aquela que fica", a que sobrevive, a que vai continuar, eu entendi o poder de um abraço e a força da frase que eu achava tão vaga: "não sei o que dizer - então, só queria te dar um abraço". E eu recebi cada um daqueles abraços! E sobrevivi por meses e meses da força que eles me deram, do calor que eles me passaram, do carinho que eles transmitiram.

Mas, isso já foi há tanto tempo...

Então que, na semana que antecede o Natal, eu fui na casa de uma amiga, que também é professora da minha filha. Ela não estava e a mãe dela (a quem eu chamo carinhosamente de "tia", mas com quem nunca tinha tido maior intimidade) veio abrir a porta. Eu fiz o clássico cumprimento que qualquer um faria: eu a abracei e disse "como vai, tia? Tudo bem?". Só que ela não soltou o abraço. Ficamos assim por uns minutinhos e eu percebi que ela comeou a chorar. Discretamente, mas chorou. Eu nunca soube exatamente o que estava acontecendo com ela, naquele dia, mas percebi que ela precisava de tudo isso que eu, uma vez, tinha recebido com abraços: força, amizade, conforto, carinho, calor.

Eu nem ia dividir essa história por aqui, mas, neste sábado, eu fui levar novos documentos pra minha amiga. Ela não estava em casa, novamente. E a mãe dela me recebeu, novamente. Nos abraçamos, dissemos as palavras amigáveis e comuns de sempre, beijinho, beijinho, tchau, tchau. Mas, quando eu entrei no carro, abri o vidro e acenei pra ela, ouvi: "Mirys, muito obrigada por aquele abraço, naquele dia. Você não sabe como eu precisava dele!... Muito obrigada!"

Meu ponto é: você nunca sabe quando pode fazer a diferença na vida de outra pessoa, com um gesto tão simples. Então, não economize! Pros seus amigos, pra sua família, pros seus filhos, praqueles que você admira: AQUELE ABRAÇO!

PS: C., este texto foi escrito no dia em que eu gostaria muito de estar do outro lado do país e te dar aquele abraço, amiga! Infelizmente, não consegui... Mas, saiba que pensei em você e sinta-se abraçada, virtualmente. TJ é TJ!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Conversa Difícil... (Diário do Guigo)

Ontem, voltávamos da igreja, à noite, só eu e a mãmi. Quando chegou mensagem no celular dela, eu pedi pra ler (ela estava dirigindo, né galera?!) e ela deixou. E nós começamos a conversar...

Guigo: "Mãmi, é melhor você ter só amigos, mesmo... não é?"
Mãmi: "Por que, filhote? Não seria legal se, um dia, a mamãe tivesse um namorado?"
Guigo: "Não... é melhor só ter amigos, mesmo."
Mãmi: "Mas, Guigo, por que a mãmi não pode ter um namorado, de novo, um dia?" (silêncio) "Não seria legal termos mais alguém pras nossas aventuras?..." (silêncio) "Filhote, eu quero que você sempre converse comigo, tá? Pode me dizer o que você pensa, que a mamãe vai te ouvir."
Guigo: "Mas, mãmi. Você já tem filhotes. Não é o BASTANTE?"

Andamos em silêncio, por uns quarteirões. E eu comecei a falar do Nono e de que eu adorava a casa dele, sempre com um monte de gente.

Mãmi: "Então, filhote. O Nono tem uma namorada E tem 10 filhotes! Viu? Não é legal?"
Guigo: "É, mãe. É muito legal."
Mãmi: "Então, Gui. O Nono tem filhotes E namorada. Por que que a mãmi não pode ter as duas coisas, também?"
Guigo: "Porque a namorada do Nono não se enfiou naquele carro que bateu!"

Assunto encerrado, por mais uns quarteirões. A gente nunca tinha conversado sobre isso, antes. E já vai fazer 2 anos, daqui uns dias, que somos só nós 3: eu, a mãmi e a Nina. Mas, eu nunca puxei o assunto, antes. Nem a mãmi quis forçar a conversa comigo...

Guigo: "Mãmi, eu preferia que VOCÊ estivesse naquele carro..."
Mãmi: "Que carro, Guigo?"
Guigo: "Naquele carro que bateu."
Mãmi (já pensando, nas sua cabecinha boba feminina, que eu preferia que ela tivesse morrido e o papai tivesse ficado): "Por que, filhote?"
Guigo: "Porque todo mundo sabe que você é 'piloto', mãmi. Você dirige melhor do que o papai. Você não ia ter batido o carro!"

(PS: se você ainda não conhece a nossa história e não entendeu direito esse post, clique nos ícones "início" ou "explicações" aí abaixo, que você vai parar numa página com alguns posts que nos explicam...)

domingo, 20 de novembro de 2011

No altar (Diário da Nina)

A gente voltava de Bauru. Só eu, a mãmi e o Guigo. Nós dois brincávamos atrás e a mãmi dirigia. Quietinha. Ela sempre fica quietinha em um pedaço daquela estrada...

Então, eu puxei papo:

"- Mãmi, me promete uma coisa?"
Ela saiu do "transe" e respondeu: "- Claro, filhota! O que?"
"- Mamãe, no meu casamento, você pede para VOCÊ entrar comigo?"

E a mãmi não respondeu...

(parte II desta conversa aqui)

domingo, 23 de outubro de 2011

A lua da mamãe (Diário da Nina)

Todo mundo tem uma coisa preferida na vida. A da minha mãe é a lua. Mais do que as estrelas. Mais do que o sol. Mais do que as árvores. Minha mãmi gosta da lua. Sempre gostou! Ela adorava ficar com a gente, na rede, à noite, lá na casa velha, olhando o céu, balançando e olhando a lua. E músicas? Ela sabe muitas músicas de lua!!! Desde uma que a bibi Maria cantava pra ela, quando ela era do tamanhinho de uma "baby alive".

O acidente do pápa aconteceu numa noite de lua cheia. Eu não liguei uma coisa à outra, na hora. Na verdade, nem a mãmi sabia que era noite de lua cheia. Ela só saiu para encontrar meu pai... e não encontrou mais. E a gente (eu e o Guigo) só ficou sabendo no dia seguinte...

Então, duas noites depois do acidente, enquanto a mãmi conversava com a vovó alguma bobagem, na cozinha da nossa "nova casa" (a gente ficou morando com a vovó por uns dias), eu percebi uma coisa importante! Muito importante! E fui interromper a conversa da mãmi com a vovó...

(imaginem uma menina de 3 anos, puxando a saia da mãe - mania que tenho até hoje)
"Mãmi... quando o papai morreu era de noite, não era?"

A mãmi respirou fundo, abaixou e disse que, sim, era de noite. E ficou me olhando, sem entender o meu raciocínio. Ela achava que eu fosse ficar brava porque ele tinha ido embora de noite e ela só tinha me contado de dia. Mas, eu completei:

"Mãmi... e como você vai fazer agora?". E ela me olhou com um ponto de interrogação no rosto. "É, mãmi. Porque de noite, tem a lua, que você adora!"

Então, antes que isso se tornasse incompatível para a nossa mãe (a lua, a noite e o papai), nós decidimos que, agora, o papai mora na lua. E toda vez que a gente vê a lua, a gente manda um beijo pra ele! Em alto e bom tom. Mesmo 1 ano e 9 meses depois.

Agora, as duas coisas preferidas da mamãe ficam sempre juntas!...

PS da mamãe: eu já devia ter escrito esse texto, há muito tempo, porque algumas coisas devem ficar registradas (para os pequenos, no futuro, conhecerem a história deles)... mas eu não consegui. Desculpem! Agora, estou melhor.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

"Você não está exagerando?..." (Diário da Mirys)

Ouvi isso, ontem, e estou pensando nessa frase até agora. Vou situar você no contexto da coisa toda e você me dá sua opinião sincera? Promete???

Vamos lá. Meu pai sofreu um acidente de carro, na mesma estrada em que o pai das crianças sofreu um acidente (e faleceu...), no ano passado. Também era noite. A culpa também não foi dele (motoristas imprudentes SEMPRE existem nas estradas, pessoal! Sempre! Fiquem atentos!). As coincidências param por aí (graças a Deus).

O carro do meu pai ficou destruído (pelo que me disseram - eu não vi). O carro do Fer ficou intacto. Meu pai está vivo e milagrosamente bem (considerando o tamanho do acidente). O Fer não.

Então que, na noite de segunda, eu recebo uma informação por celular (eu moro em outra cidade) juntando, na mesma frase, as palavras "acidente + estrada Jaú / Bauru + pai". Tanto faz o meu ou o das crianças, tanto faz o resto da frase ("ele está bem"), tanto faz que O MUNDO estava com meu pai no hospital e ele já tinha sido analisado do dedão do pé ao último fio de cabelo. Meu chão sumiu... o ar faltou... a janta ficou a meio caminho da boca... e aquela sensação horrível de impotência, de falta de controle sobre a vida, voltou. Com toda a intensidade que poderia voltar!

Me descobri muito prática, muito razoável, muito sensata (pra mim, tá?). Quando percebi que não era trote, que aquilo tudo estava, sim, acontecendo (de novo), eu dei um longo respiro e tentei ser organizada. Liguei para quem podia me passar as melhores informações sobre meu pai (os médicos - amigos, filha, filho), confirmei onde estavam as crianças (com uma amiga/irmã) e se já sabiam (não), coloquei os celulares para carregar, avisei meus chefes do trabalho, vi a necessidade de ir para Jaú.

Como não havia NECESSIDADE alguma (fora o meu coração de filha), não fui. Além do que, meu pai acabou me ligando e me pedindo para não pegar a estrada à noite. Mas eu já estava decidida que não pegaria. INFELIZMENTE, por mais frio e insensível que possa parecer, os meus dois pequenos, agora, só têm a mim. Então, não posso me dar ao luxo de correr riscos desnecessários, do tipo pegar o carro correndinho e ir para uma cidade há 80 km de distância, só pra ver, com meus próprios olhos, que meu pai estava bem machucado, mas não corria risco algum.

Não fui pra Jaú, na terça, também, porque a alta médica prometida não aconteceu e meu pai dormiu mais uma noite sob observação (e mais uma vez me pediu para não pegar a estrada). Conversando com a minha cunhada, achei melhor que as crianças não fossem levadas para ver o avô, na terça(no hospital), porque eu achava que seria melhor que eu estivesse por perto quando eles soubessem da história.

Isso porque, quando aconteceu o acidente do Fer, o Guigo chegou a questionar com algumas pessoas se "era verdade" que o pai dele tinha sofrido um acidente porque "ele tinha visto o carro e o carro não tinha nem um amassadinho". Daí, eu fiquei imaginando como seria para ele ouvir que o vovô tinha sofrido um acidente, mas que estava bem, apesar do carro todo amassado (PS: o Guigo A-M-A carros e provavelmente iria perguntar dele). Como seria???

Não sou profissional da área e o Guigo está fazendo acompanhamento com uma psicóloga EXCELENTE, aqui da nossa cidade. Eu não tive dúvidas e liguei pra ela. Contei o ocorrido e perguntei como deveria proceder. Ela me instruiu a eu mesma contar a notícia (como eu tinha imaginado), na casa do avô, com o avô lá, na frente das crianças. Para não dar tempo deles criarem nenhuma fantasia na cabecinha deles, nem nada. Para mostrar que, sim, todos estamos sujeitos a acidentes (sem falar isso, né?) e temos que ser cuidadosos, mas que as histórias podem ser diferentes.

Eu fiz exatamente isso. Cheguei em Jaú, fui ver meu pai (vai que EU tivesse uma crise?!), senti um embrulho no estômago quando vi a garagem vazia, mas não tive nada demais quando o vi na cama dele, com machucados nas pernas, pés e mãos. Aparentemente, por fora, ele não tinha se machucado muito mesmo (Deus abençoe os inventores do cinto de segurança e do airbag). Só depois busquei as crianças na minha cunhada e os levei para a casa do avô.

Chegando lá, eles correram pro quarto para dar beijos, como sempre fazem. O Guigo nem percebeu os machucados e foi se jogando na barriga do meu pai (dolorida, coitado!). Quando a Helena chegou abraçando as pernas, meu pai pediu que ela tivesse cuidado com os "dodóis" dele. E ela mandou: "-O que você fez?". Ele brincou, disse que tinha caído correndo (como uma criança faria) e eles morreram de rir. E ela perguntou, de novo: "- Não, sério. O que você fez?". Ele, que já tinha amenizado a situação, contou que tinha tido um acidente na estrada, tinha batido com um caminhão, mas que, agora, já estava tudo bem. E as crianças só ficaram falando que sairiam para um aniversário comigo, se ele não queria ir junto, se podiam tomar banho na banheira dele, etc... Enfim: o vovô sofreu um acidente, mas está bem, como a gente viu com os nossos próprios olhos. Então, vamos falar de coisas legais!

Eu fui jantar com os pequenos, feliz e aliviada por causa da reação ótima deles. Eles não tinham tido nenhum sentimento ruim, nenhum medo, nenhuma inquietação (como eu tive, sabendo do acidente e não vendo o meu pai). A simplicidade de vida deles me deu inveja...

No meio do jantar, toda a família (menos meu pai e minha mãe) reunida, e eu respondendo às perguntas: "como você está?", "como ficou sabendo?", "como fez com as crianças?". E, pra última pergunta, eu contei do aconselhamento com a psicóloga, do fazer questão de estar lá no momento em que eles soubessem da notícia, da reação ótima deles. E, de uma pessoa que eu considero MUITO e sempre me dá palavras muito sensatas, eu ouvi: "você não acha que exagerou, não?"

E aí... exagerei?

PS: um dos grandes problemas de ser viúva precoce é o de (graças a Deus) não ter parâmetros ou alguém a quem imitar. Não conheço, pessoalmente, ninguém na minha situação. Então, às vezes, não sei exatamente como deveria agir, o que dá certo, o que não dá... Mas, continuo tentando! Com um sorriso no rosto (porque esse SEMPRE dá certo).

sexta-feira, 18 de março de 2011

Era uma vez... (Diário da Mirys)

Muita gente me pergunta sobre o acidente. Me pede detalhes. Me questiona "quem", "quando", "onde", "por que", "e o depois". Eu já contei sobre isso aqui (que era o volume de informação que eu acho que eles e eu aguentávamos, no momento). E acho que ainda não estou pronta para falar daquela noite e da semana seguinte. Eu fiz um lapso temporal proposital na história (no blog, ela começou 10 dias após o acidente). Nos textos e na minha cabecinha também. Tem dias que eu quero esquecer...

OBS: pra quem não sabe, as histórias eram escritas muito antes do blog existir e foram recuperadas desde que o Guigo nasceu, com a ajuda de amigas sensacionais!

Mas, tem gente que me pergunta sobre o ANTES! "Como", "onde", "quando", "de que jeito", "o que sentiu", "mas vocês eram só amigos, mesmo"? E sobre isso eu tenho boas histórias pra contar!!!

Ontem, escrevendo sobre minha avó, me lembrei de algumas partes desta história. E decidi que seria bem legal deixá-la registrada aqui, com todos os detalhes e confusões que me parecerem interessantes (gente!!! Meus filhos vão ler isso um dia, não se esqueçam!!!! E eu, a mãe, não quero passar de "divertida" para "louca desvairada"!).

Claro que eu não sei escrever "resumidamente" (Má... so sorry!... mas você diz gostar do que eu escrevo!...). E isso vai virar uma novela virtual, com direito a cenas do próximo capítulo e (tomara, tomara, tomara!!!) muitos comentários dos meus co-produtores (vocês, leitores!) me dizendo o que viria a seguir SE a história fosse deles!

Então, sempre que quiser acompanhar a novelinha, procure pelo ícone "Era uma vez". Pretendo postá-las na ordem e numeradas. Assim, você pode continuar de onde parou!
Que tal???? Vamos nessa????

Bjos e bençãos.
Mirys

Acompanhem aqui como saí disso... (tá bom, tá bom... nem tanto assim! Começaremos quando eu conheci o Fer ou um pouquinho antes, para dar emoção!)

E virei (viramos!) isso...


A história começa aqui
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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Eu já sei... (Diário da Mirys)


Outro dia 23. O 11o. Já vi esse filme antes e, definitivamente, eu não gosto do final.

É terrivel aquela sensação de "eu já sei que dia é hoje"...

7hs = eu me lembro o que estava fazendo nesse horário (namorando)...

8hs e pouco = nessa hora, ganhei o último daqueles deliciosos sorrisos com duplo sentido, sentada no sofá da sala, assistindo o Guigo jogar video-game, com o Fer...

Sei o que aconteceu às 9hs, às 10hs, às 13hs, às 17hs...

Só torço para não chegar às 20hs! Torço muito! Mas ela sempre chega. E, com ela, aquele sentimento de "eu me lembro" que me acompanhou em cada horinha do dia. Mas o sentimento das oito da noite é pior... Ganhei meu último selinho. Meu último "love you". Meu último beijo "decente" (como nós chamamos naquele trágico dia 23 de janeiro). E ele saiu para levar a uma parte da nossa família para a casa dela...

No caminho, parou para ajudar alguém. No caminho, Deus mudou meus planos. E, desde então, eu tento encontrar o meu caminho, de novo... mas é tão difícil, Fer, é tão difícil!...

Por isso, eu sei e-x-a-t-a-m-e-n-t-e como vai ser o meu dia de hoje. Porque, por mais que eu tente (e eu tento! Ah, eu tento...), eu sei decór e salteado o que se passou em cada horinha do dia 23.01 e todos os 23, depois disso, parecem ser iguais. Só que esse é na véspera do Natal!

Deus, me leva no colo, mais uma vez, por favor?...

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Um capítulo... (Diário da Mirys)


Eu, em mais uma madrugada, assistindo um filminho que começou bem tranquilo e despretensioso...

Mas o marido, de 35 anos, morre. E a garota fica. Completamente confusa. Completamente sozinha. Completamente sem saber o que fazer, para onde ir, com quem conversar. Para sorte dela, ela ainda tinha algumas cartas dele para ler... Vantagens de se saber o que vai acontecer e (mais ou menos) quando vai acontecer. Eu não tive essa "preparação"...

Em uma das cartas, ele escreveu: "-Quando você estiver triste ou insegura, tente se ver através dos meus olhos. Você foi a minha vida. Mas eu sou apenas um capítulo da sua. Haverá mais."

Por que??? Por que???
Não é muito injusto alguém ser "toda a vida" de outro, enquanto o outro é "apenas um capítulo" de alguém??? E se eu não quiser mudar de livro ou virar a página?... Se eu estiver com medo de começar um novo capítulo?... Não queria escrever uma linha sem ele por aqui (nem que fosse para falar mal, reclamar, enfim coisas normais de casal). Como terminar esse capítulo????

Não sei se, algum dia, em sã consciência, o Fer pensaria assim...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Fechar as portas. (Diário da Mirys)


Na terceira semana de janeiro, uma antes do acidente, eu estava saindo de viagem para trabalhar em Ituverava, durante a semana. Ia de carro, afinal a Jú (minha cunhada preferida!) tinha dito: "-é aniversário do João, na sexta. É justo você conseguir chegar!" Achei que ela estava certa (voltar de Ituverava pra Jaú de ônibus significava trocar TRÊS vezes de ônibus, aguardar em duas rodoviárias o horário do próximo, transformar uma viagem de 3 horas em uma de 8 horas! Eu não ia chegar pro aniversário...

Então, pedi o carro emprestado pro meu pai (porque o nosso ficaria com o Fer e as crianças), minhas irmãs gentilmente cederam, e eu fui. De carro!

Antes de sair de casa (ainda tenho a cena na minha cabeça!), foi todo mundo pro portão (Fer + Guigo filho + Nina filha + Jô e Juninho irmã e cunhado), dizer "tchau", "te amo", "boa semana". O básico. E o Fer, músico, perguntou: "-pegou uns CDs pra ouvir no caminho?" "-peguei alguns. Não os que eu queria, porque não consegui achar nenhum dos meus preferidos. Mas, peguei 1 ou 2." "-Pérai!" (um músico, de corpo e alma, não pode deixar nem ele nem ninguém ouvir "algumas" músicas porque não encontrou suas preferidas ou as melhores). Lembro-me direitinho dele, na rua, atrás do bagageiro aberto do clio prata onde eu guardava as malas, com a mão cheia de CDs, estendida pra mim. "-Espero que goste mais destes".

Saí, acenando e buzinando "a buzina da família" (todo mundo em casa faz a mesma buzina, para se identificar para os outros, na hora de chegar ou sair), aos gritinhos do Guigo e da Nina "tchau, mãma! A gente te ama!". Fui e voltei ouvindo muuuuuuitas músicas até então esquecidas no meu arquivo auditivo. No meio dos CDs tinha um do Renato Russo, gravado em inglês. Só descobri no final da viagem, então não deu para ouvir inteiro. Sempre foi louca pelo Renato Russo: cada letra, cada forma de cantar coisas banais e transformá-las em incríveis e poéticas. Algumas pessoas realmente têm o dom!...

Na volta, na sexta, coloquei o CD do Renato pra começar a viagem. Tinha que garantir que, daquela vez, o ouviria inteirinho e relembraria dos anos de faculdade. De repente, bem no final, terminou uma música e eu comecei a cantarolar a próxima, sem ela ter começado. Sabe quando você ouve, ouve, ouve e ouve um CD e já sabe decór e salteado a ordem das músicas? Pois é. Foi isso. Só que fazia ANOS que eu não ouvia aquele CD. E eu me lembrei da música, da letra da música, de tudo. Até dos "ahhhh" e "ohhhh" que, às vezes, tem em qualquer música. E olha que esse foi o primeiro CD da minha vida que eu gostei de TODAS as músicas!!!! (Dani, Badá e Nayla, by the way, muito obrigada pelo presente, em 1997!).

A música chama-se "If tomorrow never comes" e conta a história de alguém que observa seu amor, dormindo, e fica se perguntando se já deixou essa pessoa certa dos seus sentimentos por ela. "Se o amanhã nunca chegar", ele saberá que eu o amo desse jeito? "Se o amanhã nunca chegar", aquela outra pessoa saberá que foi importante na minha vida? EU já fiz a minha parte e disse isso?????? Jà demonstrei???

Claro que eu não tinha idéia do que aconteceria no dia seguinte, na minha própria vida. Claro que eu estava num momento de "namorido" com o Fer, daqueles que você passa uns dias longe e volta morrendo de saudades. Claro que, agora, muita coisa fica mais óbvia.

Mas, naquele dia, eu não pensei em nada disso. Eu só pensei se eu já tinha deixado claro, para o Fer e para as outras pessoas que eu amava, QUE EU AS AMAVA! Sim, porque isso não vale só para maridos, esposas, namorados, vale pra todo mundo!!!! Aquela pessoa do seu trabalho que é sempre gentil, merece saber que isso é legal! Aquele filho, irmão, primo que sempre te chama pra tomar um café, ir no cinema, ou aparece para bater um papo, merece saber que faz parte da sua vida e que você gosta disso! Aquele porteiro do seu prédio que todo dia te recebe com um sorriso e uma palavra bacana (mesmo que o dia DELE tenha sido péssimo, porque você não sabe porque você nunca perguntou como foi o dia DELE!), merece saber que seu comportamento é apreciado!

Ou seja: a verdade é uma só - uma hora ou outra, mais cedo ou mais tarde, todos nós vamos embora. E, quando nós formos, as pessoas que estão no nosso cotidiano (por escolha, por força do trabalho, seja por que motivo for), saberão que foram apreciadas por nós? Ou vamos deixar "portas abertas", perdões para serem dados "depois", demonstrações de apreço para serem feitas "depois"? Quando "tivermos tempo"...

No sábado, dia 23 de janeiro, um dia depois de ter ouvido aquela música e não ter comentado nada com o Fer, ele acordou "de bem com o mundo". ELE sugeriu que aproveitássemos a passagem da mãe e do irmão dele por Jaú para fazermos um almoção de família. ELE pediu para chamarmos meus pais, meus irmãos e cunhados. E tava todo mundo lá! Que sábado delicioso! A Nina o cobrou que ele não tinha ajudado a pobre a montar um quebra-cabeças... e ele disse: "-filha, vamos resolver isso agora!". Foi pro chão e montou o abençoado jogo. Também ajudou o Guigo a passar numa fase do video-game que ele queria. Também foi pro parque em frente da nossa casa para virar criança com todos os outros "meninos" da família + Nina e colocar o helicóptero do Guigo pra voar.

Lembro-me certinho (e minha mãe também) que estava na mesa ainda, umas 5hs da tarde, conversando com minha mãe e minha sogra sobre a mudança, quando eles chegaram do parque. Ele comentou qualquer coisa com o meu pai, algum site da internet que ele ainda não tinha mostrado pro meu pai. Então, disse: "-Uma hora, não. Vamos resolver isso já. Já tá na hora de eu pagar essa "dívida"". Foi lá, pegou o notebook, sentou com meu pai na nossa frente e ficaram um tempão viajando num site da China que vende um monte de quinquilharias que deslumbram "meninos".

Na hora de sair para levar a mãe dele, na última vez em que a gente se veria (mas nenhum de nós sabia disso...), ele me deu um selinho. Eu, tranquila depois de anos de convivência e intimidade, perguntei afirmando: "-mor, você não escovou os dentes agora à tarde..." "-Ai, MIriane! Só você pra falar isso!" "-Mas é verdade... não escovou... escovou?". Ele foi colocar as malas da mãe no carro e, uns 5 minutinhos depois, voltou. Me deu mais um selinho e "-tá bom, agora?". "-não. Agora, você me dá um beijo decente". E foi...

Vocês podem ver: nada dramático, nada grandioso, nada absurdo de ser feito. Só pequenas atitudes, pequenos gestos de gentileza, de apreço, de consideração. A sensação que eu tenho, agora, é que ele foi, ao jeitinho dele, concluindo seus assuntos com todo mundo, se despedindo da melhor forma de cada um, fechando suas portas sabendo que pra trás estava deixando boas memórias, palavras e gestos de carinho. Óbvio que ele não sabia nem pensou nisso tudo. Eu que acho...

Mas isso é o que é mais importante: nós não temos que deixar para fazer ou falar algo agradável para outras pessoas quando sabemos que não estaremos mais por ali ou que nunca teremos outra chance. A idéia é viver como se cada dia fosse uma nova chance de você encerrar seus assuntos e fechar suas portas de maneira agradável, deixando lembranças felizes e boas. Nós não controlamos o tempo, nem sabemos quando vai ser nossa última oportunidade com aquela pessoa. Se você tiver outra chance com aquela pessoa: ótimo! Se não tiver, não deixou nada pra trás. Pense nisso!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Enquanto a pior fase passa.... (Diário da Mirys)

Comentei com algumas pessoas muito queridas e próximas (esse tipo de conversa tem que ser ao vivo!) que uma das partes mais difíceis para mim era não ter parâmetros pra seguir. Nunca fiquei viúva antes. Não conheço ninguém que tenha ficado nessa mesma situação (35 anos, dois filhos pequenos, mudança de cidade...). Só minhas avós e a dele... mas os tempos eram outros, as idades delas eram outras, os problemas com os filhos (já criados) eram outros... tudo muito diferente. Então, não conta, né?

Eu estava no meu problema... sozinha! Sem nem uma dicazinha...
PS: espero, um dia, ajudar alguém com esse blog! Na verdade, espero SINCERAMENTE nunca ajudar ninguém porque ninguém mais vai passar por isso! Sério... NINGUÉM merece... Mas, se alguém passar e precisar de mim, estarei aqui...

Voltando à história, uma grande (e nova) amiga me fez um enorme favor e me apresentou a um outro blog, de uma outra viúva (não tão nova quanto eu, mas que passava mais ou menos pela mesma fase), caso recentíssimo (ela ainda está na fase dos 3 meses... eu já estou beirando o sétimo...). Mas ler aqueles depoimentos me ajudou muito! (chama-se "aviuvaverde.wordpress.com" ) Saber que não sou a única, escolhida a dedo, perdida por esse mundo!

Fora a Dani, só a Thaty (amo você! Mega saudade!) que tinha me ajudado com isso (talvez, sem querer), me apresentando ao diário virtual de um pai viúvo com uma bebezinha (para quem sabe inglês, vale a dica! "www.mattlogelin.com" ).

Então, hoje, escrevendo um comentário para essa outra viúva nova (ou verde, como ela criativamente se chama), percebi que não tinha compartilhado algo muito importante com vocês, meus queridos amigos!

Um dia tive uma conversa muito franca com a minha sogra (que é mãe, tinha um outro relacionamento com o Fer, estava lá na hora do acidente, é mais velha, tem um outro tipo de vida... ou seja, tudo muito diferente!) e disse algo pra ela que, às vezes, tenho que repetir para mim mesma:

-você não precisa sofrer mais do que o que já está sofrendo! O que estamos passando já é ruim o suficiente, a gente não precisa ficar cutucando isso o tempo todo, com medo de esquecer. Não vamos esquecer!


Para minha sogra, era muito importante lembrar "fisicamente" do Fer. Então, ela encheu a casa de fotos dele, ouvia músicas que ele gostava, fazendo coisas que ele gostava... só para lembrar. Eu, por outro lado, tentei manter a sanidade (até pelas crianças) e a "distância" das coisas que me faziam mal (não dele!). Fotos não me incomodavam. Nem roupas. Mas perfumes, sim! Não podia sentir os cheiros dos deles ou dos meus, que me lembrava dele ou do que ele falava ("-amor, adoro esse!" "-amor, esse não é muito bom pra hoje..."). Então, escondi os perfumes! Esperava, com isso, me poupar!

Acho que você não precisa jogar tudo fora, vender a casa, nunca mais voltar, rasgar fotos, distribuir CDs que você também gosta, esvaziar os vidros de perfumes na pia (caríssimos... tinham uns que ele tinha começado a usar na semana anterior, quando os ganhou da minha mãe, e ATÉ ESSES tinham uma história para mim!!!)... só precisa se poupar, enquanto a pior fase passa... por você ou pelas crianças! Pode escolher!


DEPOIS, você pensa no que vai fazer com tudo isso + as coisas dele + um milhão de detalhes da sua vida que você nem percebia mas ele estava lá! AGORA, você precisa ficar bem e deixar seus filhos bem. E uma maneira de fazer isso é guardando as coisas difíceis para pensar nelas mais tarde. Nas coisas, não no Fer. Ele sempre vai estar lá. Mas as coisas não precisam estar, como uma faca bem afiada, rodando pra lá e pra cá, dentro de você, o dia todo...
Focus, baby!

Então, decidi guardar o que me incomodava, para pensar sobre isso mais tarde. Quando der. Quando doer menos para mim...

PS: a-d-o-r-a-v-a essa carinha de bravo...
Miss you, baby...

terça-feira, 20 de julho de 2010

Revivendo a história... (Diário da Mirys)


Oi amigos!

Tenho ficado muito feliz com as visitas, participações, comentários de vocês no nosso blog! Obrigada!!! As crianças, então, ficaram EMPOLGADÍSSIMAS! Eu expliquei que aquele "livro" que a mamãe escrevia da historinha deles, agora, estava na internet. E que livros, na internet, se chamam blogs. Eles quiseram ver - NA HORA!!! E lá fomos nós, tarde da noite da sexta-feira, tirar o pobre do tio Murillo do computer para que eles pudessem ver a "carinha" do nosso livro!

A-D-O-R-A-R-A-M!!!!

E eu fiquei feliz, feliz, feliz!!!

Só que, agora, eles querem escrever!!! Acha que pode??? E o Guigo quer escrever E ler o blog (porque, a partir deste último semestre, ele é um legítimo neto do Nono: lê tudo! Revista, gibi, livro, propaganda, telas projetadas no datashow da igreja, bula de remédio, rótulo de shampoo, placas de rua... uma loucura!!!). Até guardou uma etiqueta da roupa nova que coloquei nele, no sábado, "para o nosso blog, mami". E me deu a maior bronca, no dia seguinte, quando peguei a etiqueta, guardada sob o travesseiro dele, para jogar fora. "Mami! É do blog! O que você ia fazer?". Então, preparem-se, em breve, vocês terão uma linda foto do Guigo com uma etiqueta!!!

Confesso que eu tinha um problema "operacional" para essa nova empreitada: eu não queria escrever a partir de agora (senão vocês iam ter muitas postagens tristes e nós somos felizes! Bem felizes! E queremos deixar todo mundo feliz!!!), até porque comecei o diário das crianças quando o Guigo nasceu!!!! 6 anos atrás!!! Um dia, por pura falta de tempo para enviar um e-mail para cada um, falando as mesmíssimas coisas, eu resolvi fazer um "e-mail coletivo" para contar como o filhote estava, com menos de um mês de vida! Então... nasceu o diário (que sempre foi mais semanário) do Gui.

Mas, como recuperar as mensagens se eu mandava do meu e-mail da empresa antiga (afinal, eu mo-ra-va na minha empresa antiga)? Depois, mandei algumas coisas do e-mail do hotmail, que foi cancelado. Depois, mandei algumas coisas de Ituverava, mas, troquei de computador. E nessa troca de e-mail, servidor, computador... EU perdi as mensagens já digitadas (tenho tudo impresso! Sério!). Mas, VOCÊS teriam as mensagens!!! Ou não? Apelei e resolvi pedir para 4 amigas (que continuam nos mesmos lugares, com os mesmos servidores e computadores) SE, POR ACASO, ASSIM, COMO QUEM NÃO QUER NADA... elas teriam algumas mensagens antigas... e... elas salvaram a minha vida!!!!!!!!!!!!!!! Não sei se tinham tudo, mas a Dri me mandou as primeiras!!!! Dá para acreditar??? E ainda avisou que "claro" que ela teria tudo guardado porque adorava o que eu escrevia!!! Ela guardou as 1as mensagens por 06 anos!!!! Drics: já te disse que eu te amo, hoje? Não? Eu te amo!!!

Então, graças à Drics, à Vivi, à Michelle, à Dani, à tia aMIGa, à Thaizoca, eu recuperei os textos antigos e, agora, vocês podem ler a nossa história completa!!! Obrigada meninas!!!

Graças a vocês, eu pude me lembrar c-e-r-t-i-n-h-o da minha história, da escolha do nome do Guilherme, da escolha do apelido dele que ficou pra todo mundo (Guigo! Tá lá, postado, em julho de 2004), da história da barata (blec! eu podia me esquecer de algumas coisas!... mas, quem sabe, outra mãe de primeira viagem também passe por isso e, tendo lido minha história, ela seja mais esperta e rápida do que eu...), de um milhão de coisas!

E mais, como esse negócio de blog vicia MESMO, eu fucei, fucei, fucei e descobri um jeito de colocar tudo na ordem certa!!! Então, as mensagens escritas em 2004 estarão, a partir de agora, postadas em 2004, em seus meses corretos! Não é o máximo!!! (Cá para nós, não sou nenhum gênio: era simples esse negócio de organizar por data, mas nunca era eu quem resolvia esses problemas internéticos, lá em casa... sempre foi o Fer... acho que fiquei mal acostumada! Espero que ele tenha ficado orgulhoso de mim!...).

Bom, vou parar. Até porque meu sogro me disse que "ele sabe que eu escrevo pouco". E era uma IRONIA, gente!!!!

Bjos e bençãos! Sempre!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

E no início havia... uma história!

(text in English below)


Pois é... cedi!

Após um certo tempo ouvindo amigos e parentes dizendo "por que você não pega o diário das crianças e faz um livro?", "por que você não escreve um blog?", eu acabei pensando que começar o tal blog, na verdade, seria muito mais simples e rápido do que providenciar o livro. Então, apesar de não ter totalmente desistido de me aventurar no mundo literário, decidi começar esse diário virtual.

Vou escrevendo assim... aos pouquinhos...
Talvez algum dia vocês me encontrem mais empolgada e vejam textos grandes!
Porque escrever (e ler!) faz parte da minha "terapia" comigo mesma!!!
E ver filmes, muitos filmes. Claro!

Espero que vocês, que nos conhecem, possam se entreter com as nossas histórias, das quais vocês também fazem parte. E se inteirar da vida dos seus sobrinhos!
Espero que vocês, que não nos conhecem, possam, ao menos, se divertir! E descobrir que, toda mãe (e, por que não?, todo pai), em algum momento da vida, passa por alguma coisa muito parecida com a que você está vivendo. E possa ver que a vida é, na verdade, realmente impressionante, divertida, mágica... mas simples!

Bjos e bençãos!

Well... I confess I embraced the idea!

After some time listening to friends and relatives saying "why do not you get the 'diary of the children' (e-mails) and transform them into a book?", "why do not you write a blog? ", I just start thinking that this blog actually would be much simpler and faster than writing a book. So, despite not having completely given up on me venture into the literary world, I decided to start this virtual diary.

I am writing this ... bit by bit ...
Maybe someday you'll find me more excited and writing biiiiig texts! ´Cause write (and read!) is part of my "therapy" to myself!
And watching films, many films. Of course!

I hope that readers that know us (in person, I mean) will be entertained with our stories, of which you are also part. And ascertain the lives of your 'nephew' and 'niece'!

I hope that you readers that don´t know us can at least have fun! And find that every mother (and why not say every father), at some point in life goes through something very similar to the one you are living. And you can see that life is really, really impressive, fun, magic ... but simple!

Kisses and blessings.

Meu pai - polvo!

(Text in English below. Enjoy it!)

Lá em casa sempre houve uma argumentação entre o pápa e a mãma:

* o pápa dizia que, na vida, amigos a gente tem poucos. Que ele podia "contar nas mãos" os amigos que tinha, aqueles com quem podia contar, para o bom e o ruim; aqueles que estariam sempre lá!
* a mãma dizia que ela tinha um milhão de amigos! E amava cada um deles! E tentava se dedicar a cada um deles, da melhor forma que ela pudesse. Começando no Nono e na Vovó, até alguém que ela tivesse conhecido há poucas semanas, mas que já tivesse dado demonstrações de afinidade, que ela achasse que poderia confiar para sempre. Plim! Já entrava na conta dos amigos da mãma.

Aliás, é IMPRESSIONANTE a capacidade da mãma de fazer amigos novos. Bastam "5 minutos" e as pessoas já estão contando a vida para ela, super íntimas! E ela se dedica a cada novo membro do seu não restrito, mas amadíssimo rol de amigos! Então, ela não conseguia entender o pápa quando ele dizia que tinha "poucos, mas bons amigos".

A verdade é que eles nunca chegaram num acordo sobre isso. A mãma teimava com o pápa que, se ele parasse para fazer cálculos, iria perceber que existiam várias pessoas na vida dele com as quais ele poderia contar, que estariam lá "para o que desse e viesse", por ele. E ele insistia nos "poucos e bons", que se contava nos dedos das mãos.

E então, no dia 24 de janeiro desse ano, acho que minha mãe ganhou a "discussão": quando ficaram sabendo do acidente do papai, muitas, muitas, muitas, muitas, muitas pessoas foram para nossa cidade, se despedir dele. Muita gente que já era de lá mesmo... mas outros tantos viajaram horas para ficar conosco e falar tchau! Teve gente que sabia que não ia dar tempo de chegar e vê-lo pela última vez, mas, mesmo assim, pegou o carro e foi pra nossa cidade. Teve gente que ligou de longe (muito longe, Portugal, França, Alemanha...). Muitos, ainda, não ficaram sabendo a tempo, então inundaram a página do Orkut do papai com mensagens de amizade e amor.

É pápa... se você podia contar seus amigos nas mãos... você devia ser, no mínimo, um polvo! (Pessoal, não se esqueçam que eu sou só um menininho de 6 anos - recentemente completados - e, na minha imaginação, polvos podem ter mãos. Muitas! Pelo menos, mais do que as 2 do papai...)

Bjos e bençãos.

Guigo + Nina + Mamãe (os 3 mosqueteiros)

OBS: a todos vocês, NOSSOS AMIGOS, que de longe ou perto estiveram conosco (e ainda estão, em orações, em recadinhos de e-mail, em torpedos no celular da mamãe, em comentários neste blog), o nosso MUITO OBRIGADO! É bom saber que meu pai foi um cara assim: tão amado!


At our home there was always an argument between Mom and Dad:

* Daddy said that we have few friends in live. He could "count on their hands" who were his friends, the ones he could rely for the good and bad, those who were always there!
* Mommy said that she had a million friends! And loved every one of them! And she tried to devote to each one of them as much as she could. Beginning with grandpa "Nono" and Grandma until someone she had met a few weeks ago but had already given demonstrations of affinity, in who she thought she could trust forever. Ding! Already entered into the account of Mommy friends.

Moreover, everyone thinks it is AWESOME the capacity Mom have to make new friends. It takes only "five minutes" and people are already telling her their life story, feeling very close to her! And she is dedicated to all new members of this "not small but much beloved" list of friends! So she can´t understand Daddy when he claimed he had "few but good friends."

The truth is that they never reached an agreement on this. Mommy insisted with Daddy that if he stopped to do some math he would realize that there were several people in his life at whom he could count, who´d be there for him no matter what. And he insisted on "just few and good ones which he could counted on his fingers".

And then, on January 24 this year, I think my mother had won the "discussion". When they have known about Dad's accident, many, many, many, many, many people have gone towards us to say goodbye to him. A lot of people that was already there (in our city) ... but many others have traveled hours to speak with us and say Daddy goodbye! Some people who knew they would not have time to come and see him this one last time, traveled any way. Nevertheless, they took the car and went to our city. We had people calling from far away (meaning: Portugal, France, Germany ...). Many people were not told in time... anyway then flooded Daddy´s page on Orkut with messages of friendship and love.

"Daddy ... if you could tell your friends in the hands ... you should be at least an octopus!" (Guys, do not forget that I'm just a little boy of 6 years - recently completed - and in my imagination, octopuses can have hands. Many! At least more than 2 that my father have ...)

Kisses and blessings.

Guigo (Bill) + Nina (Helen) + Mom (the 3 musketeers)


Note: all of you, our friends, who were near or distant to us (and still are, in prayers, in email messages, in text messages in Mommy´s cellphone, in comments on this blog), our THANKS! Good to know that my father was a guy like that: so loved!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

4 meses depois: as coisas dele... (Diário da Mirys)

4 meses se passaram... 4 meses... ainda parece que foi ontem... ainda parece que não aconteceu...

Mas aconteceu e eu preciso organizar algumas coisas na minha (nossa) vida. Dentre elas, desmontar o guarda-roupas dele. Ai meus sais... alguém me faz dormir por uns anos e só acordar em 2020?...

Não dá pra reclamar: tive quatro meses. 120 dias para colocar a cabeça em ordem, pensar direitinho, separar as coisas com cuidado, ME organizar pra essa tarefa. Até comentei com o meu pai, há um tempinho: "-preciso desocupar a casa...". E ele, brincalhão como sempre, me provocou: "-por que? O proprietário está te pedindo, por acaso?" (o proprietário, no caso, é ele. E a minha mãe.) "-esquenta não, filhota. Quando der, você tira..."

E eu adiando...

Na verdade, sabia direitinho porque estava adiando: não queria ninguém comigo nessa hora e tenho a sensação de que, em Jaú, nunca consigo ficar sozinha (de verdade, assim, fisicamente). Se falo que vou buscar pão, alguém vai junto. Vou no cinema, alguém oferece companhia. Vou na casa de uma amiga (não vou, mas queria sair), alguém se prontifica a dirigir pra mim... Por um lado, adoro essa rede de apoio INCRÍVEL que tenho. Por outro lado, queria respirar... sozinha... e não tem como dizer isso para os outros sem chatear ninguém... (por isso, levei uns meses para escrever esse texto, como se fosse no dia exato).

Eu não sabia o que ia acontecer comigo na casa. Talvez chorasse. Talvez não. Talvez tivesse a pior crise de choro da minha vida. Talvez, como muitas vezes fiz com o Fer (e ele odiava!), ficasse muito nervosa e... risse! E em nenhuma dessas hipóteses eu queria alguém de testemunha...

Então, no dia 23 de maio, um domingo, fui para a escola dominical na igreja, dei um jeitinho de mandar as crianças para casa com os meus pais (eu ia pra casa dele, mesmo!), peguei a chave da minha ex-casa (que já tinha "roubado" das coisas da minha mãe, na noite anterior) e... fui pra lá.

Tinha voltado praquela casa três vezes, antes dessa. Na 1a, fui eu e a "torcida do são paulo" (na minha família, só pode ser do são paulo!!!) pegar umas coisas minhas. Para abrir a porta do MEU guarda-roupas, tive que fechar um pouquinho a porta do quarto. Sentei no chão e chorei...: atrás da porta, estava a roupa que ele estava usando naquele sábado, quando decidiu ir pra Bauru e nunca mais voltou. Era uma roupa caseira, daquelas beeeem confortáveis. A roupa ficou lá. Esperando ser vestida de novo. E eu chorei pelo primeiro plano que percebi ter ficado incompleto na nossa vida!... Fiquei imaginando ele tirando aquelas peças, colocando outras mais "de sair", pensando (certamente!!!!!) que queria voltar rápido para vestir as confortáveis e ficar em casa, lagarteando, de novo... Ele adora ficar em casa...

Na 2a vez, fui eu e o Juninho (pobre cunhado! Passou cada uma comigo nos primeiros dias...). Assim, de surpresa. A gente tava na rua, fazendo outras coisas, e eu disse: "-preciso passar lá pegar uma coisa minha". Ele, como bom homem, se "desesperou" ("-não quer ir chamar uma das suas irmãs?", "-você vai ficar legal?"). Eu expliquei pra ele a história das roupas-atrás-da-porta e que já tinha tirado tudo de lá. E ele foi. Só que eu tinha uns livros pra pegar, no escritório. E as coisas do Fer, do estudo da semana anterior, estavam lá: meio abertos, meio fechados, meio com páginas marcadas. Respirei e continuei. Quando olhei para o lado vi uma caixa, enorme, de livros do escritório de advocacia da avó dele, que ele tinha ido ajudar a desmontar naqueles últimos dias. Tinha trazido a caixa pra casa, pra doar para a faculdade e ficar com outros. Surtei! Não ia ficar com mais aquela "pendência". Catei uma caixa (pesadérrima) e fui em direção à porta. Meu pobre cunhado pegou a outra (mais pesadérrima) e me seguiu, quarteirão abaixo, até chegarmos à faculdade de direito. Fui na secretaria, fui mega educada com todos (distribuindo bom-dias e sorrisos, à exaustão, que era para não pensar), deixei as caixas no chão, expliquei calmamente o que eram, pedi se eles poderiam selecionar (que eu não tinha tido tempo pra isso), sorri, agradeci e fui embora. Chorei na casa da minha mãe, longe do Juninho (não ia jogar mais essa pra cima dele, não é?).

A 3a ida à minha ex-casa foi a mais tranquila. Entrei, abri duas malas vazias no chão dos quartos, peguei as roupas das crianças e as minhas, fechei as malas e saí. Simples assim. Sem nem respirar!

Mas, eu sabia que aquela 4a vez ia ser a mais cheia de lembranças de todas. Fui pra lá "fujida", desliguei todos os celulares (o meu e os outros que tinham deixado comigo, de 1000 operadoras diferentes, que era para todo mundo poder me achar, se eu precisasse...), abri a porta do guarda-roupas dele e fiquei lá. Cheirei as roupas. Elas tinham cheiro de guardadas (obrigada, mais uma vez, querido Deus!). Olhei as gravatas. A roupa do nosso casamento ali pendurada (tão estreitinha... ele era tão magrinho, 11 anos atrás... e a gente vivia brincando que o casamento tinha dado um up grade nele!). Os sapatos na cômoda. Gavetas e caixas de coisas íntimas. Dele. Só dele. Daí, eu mesma entendi melhor porque queria ir sozinha: por respeito a ele, também! Se eu morresse, não ia querer minha mãe, sogra, amiga, amigo, tendo que mexer nas minhas coisas, ver o que era o quê pra poder separar o que ficava e o que não, meus pequenos segredos tão expostos assim. Se eu uso creme para celulite, apesar de todo mundo achar um disparate enorme, o problema é só meu. E do meu cônjuge (que saberia disso). E só. E, nesse caso, eu era o cônjuge. Tinha que cuidar dele...

Encontrei coisas que me trouxeram lembranças...
Encontrei coisas que nem me lembrava de termos guardado...
Encontrei coisas que nem sabia que existiam...
Encontrei coisas que ele tinha preparado para nós e não deu tempo de me mostrar (só de me avisar pela internet, numa daquelas noites em que eu estava no hotel, em outra cidade, por causa do trabalho)...
E encontrei tudo sozinha! Foi muito melhor assim...

Ninguém me julgou. Nem a ele. Seus pequenos segredos morreram comigo e os meus com ele. Conforme o combinado.

Coloquei tudo na mala (enorme), fechei, tive uma dificuldade imensa de levar para o carro, coloquei no porta-malas. Fui pra casa da minha mãe. Almocei. Fui pra Ituverava, à noite. Coloquei as crianças na cama. Só quando fui descarregar o carro é que percebi que "ele", de alguma forma, tinha vindo conosco. Que meu marido, agora, se resumia a uma mala de recordações. E só. Não me sobrou mais nada.

E eu sentei e chorei por horas, naquela madrugada...