
Hoje uma das minhas avós (ainda tenho as 2! E mais uma do Fer! Yuhuuuu!) faz aniversário. 90 anos! Isso mesmo.
NO-VEN-TI-NHA!!!
Imagina ter nascido em 1921... ter visto uma das grandes guerras (de camarote, mas viu), visto Getulio entrar e sair do poder, visto os Beatles e os Rolling Stones novinhos, ver a Jovem Guarda e achar que eles eram jovens, mesmo! Deve ter sido sensacional! E, se vocês conhecessem a minha vó MLMS (ela sempre assinou assim), iam ver que eu não estou exagerando. Ela deve ter curtido muuuito todas essas coisas. Ela era super modernex!
Totalmente desapegada de coisas materiais, ela emprestava todas suas camisolas de seda e seus vestidos, para virarem lindas roupas de reis e rainhas, nas peças de final de ano ou páscoa (ou qualquer outra reunião familiar onde os netos se juntassem com suas "brilhantes" ideias). Diz a lenda que eu (euzinha! sniff...) estraguei o vestido de noiva dela numa dessas brincadeiras. Eu não me lembro... tomara que não... Fato é que o tal vestido não existe mais!
Ela ficou viúva super cedo (olha quem fala!!!), aos 50 anos, quando meu avô faleceu com câncer. Tocou o barco sozinha, terminou de criar os 4 filhos (homens todos. ôh dó!), viajou horrores, entrou na faculdade da terceira idade, abriu conta na revistaria perto da casa dela e tinha absolutamente todas as revistas semanais!
Quando eu fui fazer faculdade, fui pra cidade dela. E morava com ela. POrque eu fazia uma faculdade de manhã e outra à noite (e mais dois cursos de línguas, às 2as, 3as, 4as e 5as feiras). Como não dava pra ficar indo e voltando para a minha cidade, eu morava com ela (há 60 km de distância dos meus pais). Isso foi uma das melhores coisas que aconteceu para mim e para todos os meus amigos (amigos! Manifestem-se!!! Eu pretendo ler isso para ela, um dia!).
Como a cidade era universitária, tinha muitas repúblicas. E onde tem república, tem bagunça. Onde tem bagunça, tem problema. Onde tem problema, tem polícia. Menos na "república da vó da Mirys" (era assim que os meus amigos chamavam a nossa casa)!!!
Lá nunca ia polícia nenhuma porque todo mundo conhecia minha vó desde pequenininho, tinha sido aluno dela, etc e tal. (e também porque a minha galera maneirava, né? Mas, vou deixar vocês pensando que era só por causa da minha super avó, mesmo).
Então, era assim: "-Mirys, vai vir algum amigo seu aqui em casa, hoje?" "-Vai sim, vózinha." "-Então... vou torrar uns amendoins!". E lá ia ela para o fogão. Ela adorava receber gente em casa (para quem eu puxei??????????!!!!!!!!!!!) e sempre esperava meus amigos com comidinhas simples, mas deliciosas. Dizia que não se importava se a gente bebesse (aos 17 anos, isso é o máximo da infração e a gente se sentia o máximo), contanto que a gente comesse e que a gente ficasse por ali, na casa dela! O povo entrava na dela. E todo mundo adorava!!!
Ela tinha um opala (que tinha sido do meu avô, acho, uns 20 anos antes) e levava a galera da faculdade pra todo lado (pobre e sem carteira de habilitação! Ôh vida!). Vivia com o rádio ligado e minhas amigas eram apaixonadas por ela!!!
Meus amigos, ela chamava todos de "Rodrigo". Tudo bem que eu tinha uns 3 rodrigos na turma. Mas, depois de tentar acertar os nomes, umas vezes, ela desistiu e todo mundo virou "Rodrigo".
"- Mirys, enquanto você estava na faculdade, o seu amigo veio aqui e disse para você ligar pra ele." "- Qual amigo, vó?" "- Aquele simpático... o Rodrigo!". Putz!!! E eu saia ligando para todo mundo que achava que pudesse ter passado em casa. Ri-di-cu-lo, mas totalmente adorável.
O único amigo que não era "Rodrigo" era o Fer. Não sei bem o motivo. Talvez por ele ter sido o primeiro amigO que eu fiz na faculdade. Talvez porque ela soubesse ver o futuro. TAlvez... Eles tinham um caso de amor, ela e o Fer, bem antes de eu descobrir que meu amigo poderia virar meu namorado. Ela adorava o jeito dele falar "Dona Maria". E ele adorava tudo nela! Mas eu sempre fui a lentinha da família e fiquei só amiga dele (smack, smack nos dedinhos! Juro!) durante quase toda a faculdade!!! Noutra hora eu conto essa história...
Voltando à minha vó, quando eu contei pra ela que o Fer tinha me pedido em namoro (sem nem um beijinho antes! smack, smack, de novo) e que eu estava pensando em aceitar, ela saiu dançando (mesmo!!!) comigo pela cozinha da casa dos meus pais! Ela gostava mesmo dele!!! Até nos presenteou, no nosso 1o aniversário de namoro, com dois ingressos para o show da Marisa MOnte! Meu primeiro show! Foi fantástico!
3 meses após eu me casar com o Fer, minha avó sofreu 2 AVCs. Teve um. Correram com ela para o hospital. Passou. Voltou pra casa. Teve outro. Todo mundo dizia que ela não iria aguentar, mas a bichinha é danada e está aí, para a felicidade geral da nação, há 12 anos (pós AVC). E ativa! Fez questão de fazer as lembrancinhas de todos os aniversários dos meus 2 pequenos, até cair um tombão, no ano passado, e ficar de cama por meses.
É bem verdade que ela não faz mais a faculdade da 3a idade. Ainda pinta e borda (figurativa e literalmente), mas é com bastante dificuldade. Não dirige mais. Tem todo o lado esquerdo do seu corpo praticamente paralisado. Mas não abre mão de sentar na varanda da casa onde ela mora há uns 50 anos, de falar bom-dia / boa-tarde / boa-noite para todo mundo que passa, de ajudar aos pedintes e lhes contar uma boa história motivacional, de sair pra passear quando consegue (e quando os outros levam).
Ela foi no último casamento da nossa família (minha irmã, há duas semanas). Aguentou sem reclamar 1 hora de viagem de carro (ela mal consegue ficar sentada por meia hora). Estava na cadeira de rodas e assim ficou durante toda a cerimônia. No final, quando estavam nos cumprimentos, meu pai foi buscá-la (e minha mãe buscou a minha outra avozinha) para beijarem os noivos. E ela foi feliz da vida!!! Impressionante a garra e a alegria eternas dessa mulher!!!
Infelizmente, tem alguns planos que eu fiz com ela, enquanto ainda morava por lá, que eu não vou conseguir cumprir. Eu ia mostrar a Europa pra ela (onde ela nunca foi) e ela ia me mostrar Nova York (onde eu nunca fui). Mas, sempre que eu arrumo 5 segundos na agenda eu corro pra casa dela ou dou uma ligadinha, que é pra lembrá-la que eu a amo muito. Com NY ou sem NY. Não importa.
Não me importa que ela já esteja bem velhinha, que eu tenha que falar gritado, que ela se esqueça no minuto seguinte aquilo que eu acabei de falar. Não tem problema. Eu falo de novo. Eu te amo, vó!
Se precisar eu grito!
EU TE AMO, VÓ!!! MUITO, MUITO, MUITO!!!
FELIZ ANIVERSÁRIO!!!
sua neta - Mirys