quinta-feira, 12 de julho de 2012

Interlúdio 2 - sobre gavetas... (Diário da Mirys)

E lá estava eu: há um ano e meio de distância do dia mais difícil da minha vida. Eu tinha vivido conforme eu me propus, na manhã seguinte: um dia depois do outro. Devagarinho. Sem grandes planos. Pois eu não suportaria que qualquer outro plano fosse quebrado. Aquele, só aquele já era demais pra mim!

Eu ainda me lembrava, certinho, do meu "presente de aniversário" de 35 anos: aprovação no exame médico, do concurso público que eu tinha prestado três anos antes. O telegrama me chamando para o cargo tinha sido um presente de casamento (em outubro de 2009). A resposta médica, com aquela palavra "APTA", em letras garrafais, no papel da minha mão, era o meu presente de aniversário (em novembro de 2009). Lembro-me de ter respondido assim a vários torpedos que recebi naquele dia: "35 anos! Apta e FELIZ!!!"

Em dezembro, o Guigo se formou, na pré escola e, no dia seguinte, eu comecei a trabalhar em Ituverava. Eu estava realizada em todos os sentidos!!!

Se antes eu reclamava com o Fer que "a gente tinha tudo, só faltava ter um pouco menos de sufoco financeiro" (ai como era dura aquela vida de dois advogados autônomos, com duas crianças pequenas pra criar), agora, não faltava nada! O salário não era nada monstruoso, mas era CERTO. Vinha todo final de mês. Sem desesperos pras contas mais básicas fecharem. E, em dezembro de 2009, eu fiz o que sempre adorei fazer mas não podia mais, por longos anos: comprei um presentinho pra cada um da minha família (inclusive a do coração), no Natal!

Um mês depois, o acidente. Um mês depois, a mudança de status para viúva. Um mês depois, o baque. Um mês depois, ficava provado e óbvio pra mim que o mais importante não era ter o emprego, o salário, a tranquilidade que ele trazia, o filho formado na escola, os meus sonhos (materiais) que começavam a sair do papel. O mais importante eram as pessoas. E eu não tinha mais a pessoa que eu tinha escolhido pra mim, do meu lado...


Junto com o Fer, morreram meus planos de sermos (apenas) uma família de 4, de viajarmos pra lugares novos, de mostrarmos Paris pras crianças, de ensinarmos música e inglês no dia-a-dia, de envelhecer de mãos dadas. Junto com ele, uma parte de mim morreu, também...me deixando vazia, perdida, sozinha por longos meses...

E eu me agarrei com todas as forças às partes que tinham sobrado: a Miriane filha, a Miriane mãe (de duas crianças de 3 e 5 anos), a Miriane amiga dos outros, a Miriane nora, a Miriane neta. Eu escolhi que fosse assim. Que as minhas facetas que se relacionavam com outras pessoas ficassem. A profissional, a professora (mesmo que voluntária), a estudante, essas todas foram colocadas numa gavetinha, por um tempo, até que eu conseguisse pensar nelas, de novo.

E a Miriane mulher foi pra última gaveta do armário. Aquela que emperra pra abrir. Aquela que tem chave. Aquela inacessível. Aquela que você nem lembra que existe porque pouco usa... Não foi de propósito, foi automático. Instintivo, até. Mas, agora, já tinham se passado longos 18 meses... mais de 540 dias... mais de 540 noites sozinha... e a situação começou a me incomodar.

Só que gavetas emperradas são difíceis de abrir...


Cenas dos próximos capítulos aqui.

10 comentários:

Tami Fonseca disse...

Realmente as gavetas imperradas são as mais complicadas de se consertarem,de voltarem ao "normal".
Mais só o fato de você ter chegado até aí já mostra o quanto você vem evoluindo nesses meses.
Força e fé sempre.
Bjinhus

Fernanda Dionisia disse...

Essas gavetas são difíceis de se abrir,mas nunca é impossível abri-las....
Que vc seja muito feliz

Mi Hernandez disse...

Mirys,realmente algumas gavetas emperram, e só com paciência,amor e jeitinho,que podem ser abertas.
Tudo no tempo certo.
Besitos

Daniela disse...

Oi, Mirys! Sei q essa gaveta deve estar pesada e bem emperrada, mas peço à Deus q ilumine seus caminhos e dê forças para vc conseguir abrí-la, mesmo q seja beem devagarinho... Muita luz e bençãos para vcs 3! Bjos!

Sandra Hellen Kautto disse...

É incrivel como sempre me emociono com a tua história, com a tua garra de viver.

Sabe que as gavetas emperradas precisam de um "jeitinho" especial para serem abertas, geralmente é um jeitinho que só o "dono" conhece...sei que você vai lembrar do segredo para abrir novamente.

Bjus

Vanessa Santos disse...

Oi minha linda, essas gavetas são mesmo difíceis de abrir, mais não impossíveis, então continue tentando abrir.
Seja muito feliz viu!
Beijos

Claudia disse...

Nós duas temos além da viuvez, mais uma coisa em comum: eu também exatamente um mês antes eu recebi a tão sonhada convocação para trabalhar no serviço público.... depois de quase dois anos esperando. Eu e o Ro saimos para comemorar, fomos jantar no restaurante mais caro da cidade e na hora de pagar ele me disse "hoje eu pago e na próxima vc, com teu salário de funcionária pública"... não deu, não tem mais como....

Haydil disse...

Mirys,tenho certeza que as gavetas serão abertas na hora certa, você conseguiu fazer com que eu percebesse que as minhas gavetas estão fechadas há muito tempo e não estão emperradas, eu não quero abrí-las.Queria muito ter este espírito de Pollyana e não consigo, mas obrigada!

Debby disse...

Oi Mirys nossa!
Imagino e como
Porque eu mesma em coloquei como mulher numa gaveta que emperrou, enferrujou com o tempo.
Mas só o tempo amiga para nos ajudar e muita força de vontade.
bjs e estou adorando te ler novamente.
Bjs e te admirando muito
Debby :)

Larissa Banister disse...

Minha flor é dificil para mim ler seus posts. Sou recém casada e tão tão apaixonada que a cada post seu sinto sua dor e me acabo de chorar kkkkkkkk mas vou te dizer uma coisa de quem tb, como vc, adora escrever: vc emociona com suas palavras, vc nasceu com esse dom. Um beijo enorme =*