sábado, 28 de julho de 2012

Interlúdio 16 - a sua atitude muda a reação das pessoas (Diário da Mirys)

Depois de ver partir aquela pessoa com quem eu prometi passar o resto dos meus dias, depois de ficar sozinha por quase dois anos, depois de já ter chorado e orado tudo o que eu podia, eu enfim conseguia ver aquilo que o resto do mundo falava pra mim: eu era muito nova pra que minha vida acabasse ali, naquele acidente, junto com o Fer. Eu ainda teria mais coisas, viajaria pra outros lugares, veria novas paisagens, gostaria de outras pessoas. Enfim, eu continuaria a viver. Apesar de.

E eu comecei a fazer li-te-ral-men-te as três primeiras coisas da lista acima: entrei num trem, sozinha, de noite, em Hagen (Alemanha) e acordei em Praga (República Tcheca). Me apaixonei por Viena. Vi o castelo da Cinderela. E Barcelona (e a minha irmã) me aguardava, pra fechar com chave de ouro aquela viagem de 2 semanas que mudaria a minha vida.

Eu, que nunca tinha “ficado” com alguém, na minha vida, tinha ido pro outro lado do mundo e beijado um alemão! Ora, ora, vejam só!... Eu pensava nisso e gargalhava, sozinha, dentro de todos os trens que eu tomei!!!!

Aquele moço não era perfeito no momento só porque ele era totalmente diferente do Fernando. Não, ele tinha um plus: ele morava em outro continente e eu nunca mais iria vê-lo! Então, eu tinha o direito de errar. Errar feio, se preciso fosse. Eu podia beijar errado, falar bobagem, não ser a melhor companhia do mundo que TUDO BEM. Eu não ia vê-lo mais... Mas acho que não fiz nada disso. Porque, na manhã seguinte, já recebi um torpedo dele. E mais outro. E mais outro. E fui passeando, na Europa, trocando torpedos com um alemão. Enquanto eu andava sob a chuva de Praga, ele visitava amigos em Hagen. Enquanto eu me encantava com Viena, ele palestrava em uma faculdade. Enquanto eu chorava, na frente do castelo da Cinderela, no sul da Alemanha, ele trabalhava pra terminar um projeto. E, dentre muitos torpedos, ele me mandou um assim: “adoraria tomar um café com você em Stgd”.

Ele morava em Stgd, uma cidade grande, no sul da Alemanha também, mas umas três horas de trem de onde eu estava. E eu fui pra estação comprar a passagem pro próximo destino. Eu podia conhecer o leste da Suiça, antes de partir pra Barcelona.... ou ir pra Stgd, e partir pra Barcelona de lá. E como eu acho que passar pela vida sem emoções (saudáveis e que não trazem prejuízo pra ninguém) é uma COMPLETA BOBAGEM, eu comprei a passagem pra Stgd! Eu não ia avisá-lo, é óbvio! Não queria que ele se sentisse na obrigação de me acompanhar, na “cidade dele”. Eu ia visitar a cidade! Mas, se desse certo....

Meu último torpedo com ele tinha sido na noite anterior. Eu tinha parado numa cidadezinha, no meio do caminho, e já estava no trem, pra segunda metade da viagem, quando ele me mandou uma mensagem: “estamos na loucura pra entregar esse projeto. Desculpa não te ligar antes. Como está? Onde está?”. ONDE está! Ele tinha perguntado ONDE eu estava. Bom sinal, aquele.... Respondi que estava no trem, saindo da tal cidadezinha. “E aí, senhorita insone, qual a próxima parada?”. Eu falei sobre o insone e não falei sobre a parada. Eu NÃO queria que ele fizesse nada por obrigação e eu ACHAVA que ele ia se sentir assim, se eu falasse de Stgd. “Mas, me conta, qual o próximo museu que você vai ver?”. E eu falei o nome de um dos museus da cidade dele. “Você está vindo pra Stgd?????” Eu comecei a escrever que sim, mas que ele não precisava se preocupar e bla-bla-bla, quando chegou outro torpedo (só eu sei o quanto eu gastei de torpedos Brasil/Europa, naquela viagem) “A que horas você chega? Em qual plataforma? Eu VOU te buscar.” Simples assim.... jogando todas as minhas neuras ao vento e ainda abanando, que era pra não deixar dúvida....

Quando eu o encontrei, na estação, ele usava blazer e jeans... e tênis verdes! Juro! Comecei a reparar no pé de todo mundo por lá e isso era bem normal – usar tênis e voltar pra casa andando, depois do trabalho. Então, tanto fazia a cor, porque não era pra combinar, mesmo... Deixamos minha mala num depósito e ele me disse “vem, quero te mostrar umas coisas”. E lá fui eu, conhecer o centro histórico de uma cidade que tinha vivido as guerras mundiais, a reforma da igreja, etc e tal, acompanhada de um arquiteto!!! Um arquiteto legítimo e local!!! Pra quem é apaixonada por história, como eu, conhecer todos aqueles prédios e praças, com alguém que entende porque tal telhado é assim, porque tal fachada é assado, como era antes e como ficou depois, foi um deleite! Gastamos horas e horas andando, conversando, trocando ideias sobre costumes, países, gostos. Quando falávamos sobre temperatura (eu adoro o frio, mas m-o-r-r-o de frio, no menor ventinho – e estava um ventão), passou por nós uma menina linda, com uma saia minúscula. “Viu? Eu não sei como vocês conseguem! Eu jamais poderia usar uma saia daquela com um frio desses...” “Que saia?” “Daquela menina, que passou por nós, agora.” “Que menina?”. Dá pra não se sentir linda e única, do lado de um cara com uma atitude dessas?

“Está com fome?” E ele me levou pra um restaurante ótimo, num bairro alto da cidade. Escolheu uma mesa perto da parede, me sentou e se sentou na minha frente. No meu campo de visão, toooodo o restaurante africano e todas as pessoas que estavam lá. No campo de visão dele, só eu. E tomamos vinho, e jantamos, e conversamos mais. Em nenhum momento a gente tinha falado da gente ou ele tinha tentado alguma coisa, mas ele já tinha deixado bem claro que estava comigo. Naquele momento, eu não estava mais sozinha...

Quando pegamos a mala no depósito, caminhamos, pelo meio de um parque. “Não é perigoso? Já é mais de meia-noite!...” Pra minha sorte, na Alemanha, não era perigoso. E, no meio do caminho, ele parou na minha frente, segurou no meu rosto e disse: “é uma pena que você more do outro lado do mundo...”. E me beijou.

Naqueles dias, eu entendi que, se uma parte minha tinha morrido junto com o Fer, ainda tinha uma outra parte que tinha ficado. Que eu ainda estava viva... que eu ainda era notada... que eu ainda poderia ser desejada (no melhor sentido da palavra) por outro alguém... Que aquela estória de só existir uma tampa pra cada panela não é 100% verdade. Algumas tampas não vão te servir de jeito nenhum. São grandes demais, pequenas demais, priorizam outras coisas. Mas, não é possível que, num mundo tão imenso desses, só existisse uma pessoa pra mim, que ela morasse exatamente na mesma cidade que eu e que, se ela morresse (ou me deixasse por qualquer outro motivo), eu estaria fadada a ficar sozinha para sempre e sempre...

Depois de uma semana que eu estava no Brasil, eu recebi QUATRO propostas para sair / jantar de novas pessoas + UMA proposta de um ex-namorado. Tudo o que não tinha acontecido em quase dois anos, acontecia, agora, tudo junto, em uma semana! E eu parei pra prestar atenção que eu estava me arrumando mais, depois da Alemanha; me cuidando mais; saindo mais; sorrindo (sinceramente) mais. E que o que eu sentia por dentro fazia toda a diferença no que as pessoas viam por fora! Ou eu comecei a olhar mais para o lado... sei lá! Só sei que a MINHA ATITUDE de decidir recomeçar, até brigando comigo mesma se preciso fosse, fez toda a diferença....

Cenas do próximo capítulo aqui

10 comentários:

Vanessa Santos disse...

Ai meus Deus to curiosa demaisssss
Beijos

Chrys disse...

Mirys,
Estou amando ler seus posts!
Lembra que nossos sonhos podem até adormecer, mas estão vivos em nós!
Seja muito feliz!

Beijos

Chrys

Nana disse...

Hum....sabe que esse post me lembrou o filme PS Eu Te amo?! Pq ela vai pra bem longe para tentar recomeçar e, é graças a um gato do outro lado do mundo, que ela percebe que ainda existe vida do lado de cá....adorei saber dessa historia!!! Bj e fk c Deus.

Haydil disse...

Que bom é renascer, que bom se sentir desejada!

Anônimo disse...

Olá! Leio o blog e te acompanho há tempos escondidinha... Mas preciso que vc saiba o qto admiro sua história e sua perseverança! Sucesso em td que planejar e mta saúde e paz para vc e seus pequenos.
Bjs
Juliana

Sandra disse...

Oi Mirys, prazer em conhecê-la.

Não me lembro como cheguei no seu blog, foi por indicação de outro blog como sempre acontece. Isso foi há uns 3 meses atrás. Infelizmente não consigo acompanhar todos os posts dos blogs que sigo mas a sua Saga Interlúdio :D coincidiu com minhas férias então eu tenho acompanhado entusiasticamente seus posts. Toda hora vejo se tem post novo.

Quero manifestar meu respeito por tudo o que você viveu e aproveitar para dizer que você escreve muito bem.

Grande abraço.

Rafaella disse...

Que lindoooooo...
Muito fofo ele...
Como é bom se sentir mulher de novo ne....
Concerteza uma viagem muito especial!!!
Bjs

Claudia disse...

Mirys pra quem achava que ninguém te notava vc acabou recebendo quatro propostas!!!! É isso aí, tudo de bom, beijos.

Debby disse...

Mirys como é bom sentir as mesmas emoções esquecidas dentro da gente de forma diferente, não é?
É a certeza de vida correndo dentro da gente pedindo simplesmente para ser vivida.
Bjs e boa sorte amiga, mas continuo CURIOSAAAA rs rs

Debby :)

Micha Descontrolada disse...

q fofo esse alemão...e realmente, vc se abriu pro mundo.

Beijossssssss
┌──»ʍi૮ђα ツ