domingo, 17 de outubro de 2010

O seu lugar... (Diário da Mirys)


Hoje fiz algo pela 4a ou 5a vez. Não me lembro, ao certo. Só sei que foram poucas vezes. Eu fui ao cemitério...

Ele acabou sendo velado em Jaú, por decisão da minha sogra, pois "a família dele estava em Jaú" (ela se referia a mim e às crianças). Eu não quis participar dessa decisão porque, para mim, lá na estrada, quando isso foi decidido, eu já sabia que ele não estava mais por aqui... Na minha forma de crer, quem aceita a Jesus, vai para o céu, viver a vida eterna. Então, era lá que o Fer estava desde o segundo seguinte ao acidente (pois dizem os médicos que ele teve morte instantânea com o choque... eu não sou médica e não fui atrás de detalhes... fiquei com essa versão...).

Mas, hoje, acho que foi mesmo muito bom pra mim que ele tenha sido enterrado em Jaú. Sei que é egoísmo da minha parte.. mas, a mãe dele tinha razão: era ali que ele tinha morado nos últimos anos, os amigos do cotidiano estavam ali, o pessoal da igreja estava ali, os filhos estavam ali. Naquela hora, o mais sensato era que ele também ficasse ali...

E isso me deu a chance de ir ao lugar onde "ele está", para "conversar" com ele, quando sinto muitas saudades. Eu sei, eu sei... ELE não está ali. Tenho plena consciência disso. Mas aqueles que ficam têm algumas necessidades que, às vezes, não podem ser supridas de outra forma. Então, imagino que ele está ali, vou até aquele lugar quieto, num dia ensolarado, com céu azul e fico por lá, orando (por mim, pelas crianças, pelo resto da nossa família) e falando sozinha.

Quando vou lá, eu "conto" pra ele como estão as coisas, o que fizemos, os planos que eu já conseguir "ticar" no nosso "check list". Tinha tanta coisa que a gente queria fazer... "-Mi, imagine quando fizermos isso?" "-Amor, já pensou quando o Guigo começar a ler?" "-Não vejo a hora de fulano melhorar, benzinho!" Então, quando nossos queridos ficam curados, passam na faculdade, casam, tem filhos, etc, eu sinto uma grande necessidade de ir lá e "contar" pra ele. Afinal, torcemos tanto para que tudo isso acontecesse! Torcemos JUNTOS!!! E foram tantas coisas boas (nossas e dos outros), nesses longos quase nove meses, que eu fico achando que eu fui pouco, muito pouco, até lá...

Estranho que, noutro dia, uma amiga queridíssima me ligou, logo quando eu saia daquele lugar. E eu atendi ao celular em inglês. Então me dei conta de que, quando estou lá dentro, eu oro e "converso" na língua que falávamos entre nós, nos momentos mais nossos. E eu nem tinha percebido isso...

Loucuras de uma pessoa que fica viúva muito cedo, de um modo muito inesperado...
A gente não sabe direito como agir, o que fazer, pra onde ir...
Todo mundo tem um "porto seguro", um lugar para ficar em paz. O meu sempre sempre sempre foi a minha casa. Eu dizia que o mundo podia desabar ao meu redor, que eu recarregava as baterias em casa e voltava pros problemas, cheia de vontade de solucioná-los! Agora, minha casa é um lugar vazio, com uma cama pra dois onde dorme um só. Me sinto sozinha, em casa. Me sinto acompanhada, no lugar do Fer. Acompanhada pelo pai dos meus filhos. Acompanhada pelo meu Pai. Virou meu novo "porto seguro", por uns tempos...

Talvez essa "loucura" de viúva passe logo...
Talvez...

7 comentários:

Fabiana Pereira disse...

Eu acredito que determinadas dores não passam nunca e nem adianta tentar me convencer que passam, pq eu sei que não passam.
O máximo que acontece é o tempo passar, e com ele rotinas, atividades, e você se acostumando com a vida nova que leva mesmo contra sua vontade.

A seu enorme favor voce tem dois pontos, o primeiro é a religião, e o outro a família tanto a pequena família que vocês construíram, como a grande sua e dele que estão sempre por perto.

Faça o que o seu coração pede, vá onde vc sentir que precisa ir e deixe o tempo passar.

Nana disse...

Vi um filme esses tempos chamado "A Filha do pastor" e aprendi um ditado muito interessante: "ninguém cuida melhor da família do que a família". Não importa como ela seja... Bjs e fiquem com Deus.

Graciela Aoad disse...

Olá 3 mosqueteiros...
já tem alguns dias que sempre leio o blog, mas me falta a coragem pra comentar.
Lendo hoje, sobre a viagem de vcs, pra uma praia que eu amo de paixão desde a idade da sua pequena, ou menos até, estou aqui com o choro embargado.
Sua força, Mi, como diria minha pequena Melissa, "é fora do comum".
Desejo que vc se permita sempre conversar com ele, pq mesmo a gente sabendo que não haverá respostas, desabafar é o melhor remédio. Eu acho!

beijos pra vcs 3 e uma linda semana

Graciela

Camila disse...

...Mas é claro que o sol vai voltar amanhã... Mais uma vez eu sei... Escuridão já vi pior de endoidecer gente sã... Espera que o sol já vem...

Mirys disse...

Fabiana: também tenho essa sensação, de que não passa e não vai passar. Mas, talvez, não seja pra passar, mesmo. Seja pra lembrar pra sempre. Sem dor, com uma saudade boa... sei lá... Daqui uns anos, te conto! Escreva sempre!

Nana: taí um filme que ainda não vi. Mas, já concordei com a frase!!! Aliás, sempre pensei meio assim, mesmo...

Graciela: que bom que resolveu escrever. Adoramos os comentários!!! É bom saber que tem alguém do outro lado! É pra isso que escrevemos!
Pena que, nas conversas na "casa do Fer", eu não tenha nenhuma resposta... mas desabafar é mesmo muito bom, não é?

Cá: vou tentar me lembrar da música... amo vocês!

Graciela Aoad disse...

Oi Mirys....
sabe que lendo as palavras da Fabiana, concordo em quase tudo.
Digo quase, pq tenho uma dor que até hj não passou. E só convivi com esse "serzinho" dentro de mim, alguns meses.Já se passaram 07 anos, tenho uma filha LINDA que Deus me deu, mas a dor NÃO passou.
O tempo sim!
Mas até esse tempo passar, sofri muiiiito, me tranquei em casa, diquei meses sem falar com ninguém e NUNCA, até hoje, falei com alguém sobre isso.
Acredito que ter agido assim, tenha aumentado mais ainda meu sofrimento.
Por isso, hoje, acredito que devemos desabafar. Alivia o coração da gente. Tira um peso das nossas costas.
Espero do fundo do meu coração que vc e suas duas bençãos de Deus, consigam seguir amenizando essa dor.
Que você continue sendo essa mulher guerreira, mesmo que só por fora.
Pra eles, vc será o maior exemplo.

Contando ao meu marido, sobre como cheguei ao seu blog (pelo blog do Marcelo - da Crescer), ele ficou olhando pra mim com cara de "vc de novo está viciada em internet".
Mas, qdo eu comecei a chorar, ele apenas me abraçou. Envio pra VOCES esse abraço.
É o abraço dos 3 daqui, pra VOCÊS 3 Aí!!!
Beijos Carinhosos

Mirys disse...

Gra:
Obrigada pela força!!!
São esses pequenos (ás vezes, grandes! rsrsrs) comentários que têm me sustentado, nos últimos tempos.
É muito bom saber que tem gente por aí... torcendo por nós 3... obrigada mesmo!
Tem gente que prefere falar, outros preferem escrever. Descubra qual a sua preferência e tente dar essa chance de desabafar para você mesma!!! Sua vida está aí: com sua família, seu marido que a apoia, sua filha linda e tantas outras coisas boas. As coisas ruins, Gra, vem e VÃO! Elas têm que ir embora!!!
Bjos. Mirys