E lá estava eu: há um ano e meio de distância do dia mais difícil da minha vida. Eu tinha vivido conforme eu me propus, na manhã seguinte: um dia depois do outro. Devagarinho. Sem grandes planos. Pois eu não suportaria que qualquer outro plano fosse quebrado. Aquele, só aquele já era demais pra mim!
Eu ainda me lembrava, certinho, do meu "presente de aniversário" de 35 anos: aprovação no exame médico, do concurso público que eu tinha prestado três anos antes. O telegrama me chamando para o cargo tinha sido um presente de casamento (em outubro de 2009). A resposta médica, com aquela palavra "APTA", em letras garrafais, no papel da minha mão, era o meu presente de aniversário (em novembro de 2009). Lembro-me de ter respondido assim a vários torpedos que recebi naquele dia: "35 anos! Apta e FELIZ!!!"
Em dezembro, o Guigo se formou, na pré escola e, no dia seguinte, eu comecei a trabalhar em Ituverava. Eu estava realizada em todos os sentidos!!!
Se antes eu reclamava com o Fer que "a gente tinha tudo, só faltava ter um pouco menos de sufoco financeiro" (ai como era dura aquela vida de dois advogados autônomos, com duas crianças pequenas pra criar), agora, não faltava nada! O salário não era nada monstruoso, mas era CERTO. Vinha todo final de mês. Sem desesperos pras contas mais básicas fecharem. E, em dezembro de 2009, eu fiz o que sempre adorei fazer mas não podia mais, por longos anos: comprei um presentinho pra cada um da minha família (inclusive a do coração), no Natal!
Um mês depois, o acidente. Um mês depois, a mudança de status para viúva. Um mês depois, o baque. Um mês depois, ficava provado e óbvio pra mim que o mais importante não era ter o emprego, o salário, a tranquilidade que ele trazia, o filho formado na escola, os meus sonhos (materiais) que começavam a sair do papel. O mais importante eram as pessoas. E eu não tinha mais a pessoa que eu tinha escolhido pra mim, do meu lado...
Junto com o Fer, morreram meus planos de sermos (apenas) uma família de 4, de viajarmos pra lugares novos, de mostrarmos Paris pras crianças, de ensinarmos música e inglês no dia-a-dia, de envelhecer de mãos dadas. Junto com ele, uma parte de mim morreu, também...me deixando vazia, perdida, sozinha por longos meses...
E eu me agarrei com todas as forças às partes que tinham sobrado: a Miriane filha, a Miriane mãe (de duas crianças de 3 e 5 anos), a Miriane amiga dos outros, a Miriane nora, a Miriane neta. Eu escolhi que fosse assim. Que as minhas facetas que se relacionavam com outras pessoas ficassem. A profissional, a professora (mesmo que voluntária), a estudante, essas todas foram colocadas numa gavetinha, por um tempo, até que eu conseguisse pensar nelas, de novo.
E a Miriane mulher foi pra última gaveta do armário. Aquela que emperra pra abrir. Aquela que tem chave. Aquela inacessível. Aquela que você nem lembra que existe porque pouco usa... Não foi de propósito, foi automático. Instintivo, até. Mas, agora, já tinham se passado longos 18 meses... mais de 540 dias... mais de 540 noites sozinha... e a situação começou a me incomodar.
Só que gavetas emperradas são difíceis de abrir...
Cenas dos próximos capítulos aqui.
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quinta-feira, 12 de julho de 2012
Interlúdio 2 - sobre gavetas... (Diário da Mirys)
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terça-feira, 24 de janeiro de 2012
A despedida... (Diário da Mirys)
Domingo, 24 de janeiro de 2010.
Depois de um tempo lá, sentada, ela resolveu que tinha que fazer alguma coisa. Ele tinha ido, mas outros tinham ficado. E podiam precisar dela. Seu pai e o marido da sua irmã (também médico) tinham ido ficar com o Fer. E ela foi cuidar de sua sogra. Estava preocupada com a pressão dela, com o coração, com o estado emocional, com tudo! E estava certa: sua sogra realmente precisava de ajuda. Foi até um enfermeiro ou médico da ambulância e explicou a situação. Ele disse que nada podia fazer, que eles teriam que esperar, por sabe lá quanto tempo, até uma próxima ambulância chegar, pois nenhuma das 5 que lá estavam podiam socorrer aquela senhora, naquela hora... Esperaram, a ambulância chegou, mas só poderia levar duas pessoas: sua sogra e o irmão dele foram os escolhidos. Pois ela achava que estava bem. E sua irmã, mais uma médica, poderia leva-la pro hospital... Quanta sorte ter tantos médicos na família...
No caminho, completamente em transe, ela começou a se lembrar de algumas pessoas que precisavam ser avisadas: seu sogro (meus sais, como falar isso pra ele?!), amigos mais chegados, irmãos, seu chefe/amigo...pegou o celular e ligou uma vez para cada pessoa. Com quem conseguiu falar, falou.
No hospital, pediu para ser a última a ser examinada, pois achava que estava "normal". E estava. Não precisou de remédios, calmantes, controladores de pressão, anti-depressivos, nada. Nada... E ela ficou tão brava com ela mesma!!! Não conseguia chorar, não precisava de médicos, não tinha se alterado em nada. Como? Como, com uma notícia daquelas, ela não se alterara??? Como, como, como...
Chegou a duvidar do seu amor. Da sua sensibilidade. Da sua preocupação com o outro. Da sua maternidade. Da sua humanidade, mesmo!
Lembrou de seus pequenos e pediu que a levassem pra casa de sua mãe. Nem precisou virar a esquina para já perceber a quantidade de carros estacionados em toda a rua. Passava da meia-noite e muitos amigos estavam lá... Com os olhos, buscou sua mãe, a abraçou e só ouviu: "obrigada, filha. Obrigada por ser obediente ao seu marido...". A mãe dela sabia: sabia que, se ela tivesse ido junto, ela também estaria socorrendo as pessoas, ela também correria riscos, ela também estaria em perigo. E ela pediu para ir junto com ele. 4 vezes. E ele disse não. E ela obedeceu.
Não falou com mais ninguém e entrou para ver seus pequenos, que assistiam um filminho na sala, com um de seus tios. Achou melhor só olha-los pelo vidro e não atrapalha-los. Logo dormiriam. E não precisavam dormir com uma notícia daquelas. Eles só tinham 5 e 3 anos... Como se dá uma notícia dessa a crianças tão pequenas? Contar tudo, naquela hora, parecia a pior opção. Ela resolveu gerenciar sua dor, organizar o que precisasse ser organizado, chorar se conseguisse, e contar tudo no dia seguinte.
Entregou seu celular e o celular dele para uma das suas irmãs. E pediu para avisar todos os meninos das listas. Porque ela tinha amigas grávidas e/ou com bebês em casa. Não se dá uma notícia dessas, nesse horário, para mulheres grávidas, não é? Mas, os amigos precisavam ser avisados... muitos moravam longe e precisariam viajar logo cedo, no dia seguinte, se quisessem se despedir.
Quando todos foram embora, ela deitou na sala, mas não conseguiu dormir. Ela se sentia minúscula: nem dormir, conseguia! Como meia hora podia transformar vidas... pra sempre... irremediavelmente...
Mas, o sol nasceu. E esse foi o único pensamento que ela se lembra de ter tido, depois de ter entregue os celulares e virar um "zumbi", que cumprimentava amigos, recebia abraços, falava coisas, mas nada disso era consciente. "O sol nasceu. De novo. E vai nascer amanhã. E depois de amanhã... E depois de depois de amanhã..."
O telefone tocou e como ela era a única pessoa acordada, atendeu. Era da funerária. Perguntando se o caixão ficaria aberto ou fechado. Então, a ficha dela caiu... Aberto, por favor. Ela precisava se despedir... Acordou seu pai e fez um pedido tão absurdo, daqueles que só se faz para os pais, mesmo, quando você tem certeza de que é muito amada e vai ser compreendida: pediu que ele levantasse (depois de ter passado a noite quase toda no IML) e fosse pra funerária, enfaixasse o que precisasse ser enfaixado, arrumasse o que precisasse ser arrumado, para que o caixão ficasse aberto. E seu pai foi...
Era domingo. Com um sol lindo e pacífico, daqueles típicos de domingo, quando só se espera a vida passar tranquila. Daqueles que te convidam pra ir na igreja, que envolvem deliciosos almoços de família que terminam em sorvete, que são propícios para uma tarde na beira da piscina. Mas, tudo aquilo que era tão comum em todos os outros domingos, não aconteceria nesse.
Ela foi pro velório acompanhada de alguns queridos. As crianças ainda dormiam. Ela pediu para entrar na sala sozinha e assim aconteceu. Eles conversaram, só os dois, pela última vez. E ela prometeu cuidar das pessoas que eram queridas para ele, no lugar dele, do melhor jeito que ela conseguisse. Porque, na vida, é só isso que importa: as pessoas. E, naquele momento, isso era ainda mais claro!...
Abriu as portas. Dividiu com os outros o seu amor. Abraçou muitos. Consolou vários. Até mesmo lhe perguntaram, pessoas amigas da família dele (que não a conheciam bem), mais de uma vez, quem era a viúva. Pois ela não parecia se encaixar no perfil... Cuidou e foi cuidada. Quando soube que as crianças tinham acordado, fez uma reunião de família para saber o que fazer e como contar. Pai, mãe, irmã, irmão, cunhados.
De repente, no meio daquele turbilhão de emoções, onde ela se sentia como alguém que assiste um filme e fica torcendo pra mocinha se dar bem no final, ela saiu da sala - quando voltou, leu o nome dele na porta... e o seu, logo abaixo "deixa viúva a Sra. Miriane..."
E chorou. E se contorceu de dor. E se curvou. E chorou um daqueles choros incontroláveis que dão a sensação de que vão durar pra sempre...
Viúva. Viúva... Agora ela era viúva. Com 35 anos de idade: viúva. Mãe de uma criança de 3 anos: viúva. A mais velha de vários irmãos tão novos: viúva. Alegre, alto-astral, positiva, "poliana" até: viúva. Não combinava! Simplesmente, não combinava!!!! Não combinava...
Ela nem sabe quando parou de chorar ou quem a levantou do chão onde o seu corpo se curvou e ficou. Só se lembra que toda vez que lia aquela placa, o choro voltava, incontrolável, entorpecedor, até a cabeça latejar, faltar ar nos pulmões, o corpo desistir...
Dentro da sala, ela cantava. Pra ele. Ela conversava. Ela sorria. Fora da sala, em frente àquela placa, ela não existia. Era só dor!...
Até que fizeram sua última caminhada juntos. E choveu... E parecia filme... E ela foi pra casa dos seus pais (que foi pra onde a levaram, pois ela não tinha condições de pensar) e começou a viver o resto de sua vida...
(PS: quer ler a parte feliz desta história? Está aqui, na série "era uma vez")
Depois de um tempo lá, sentada, ela resolveu que tinha que fazer alguma coisa. Ele tinha ido, mas outros tinham ficado. E podiam precisar dela. Seu pai e o marido da sua irmã (também médico) tinham ido ficar com o Fer. E ela foi cuidar de sua sogra. Estava preocupada com a pressão dela, com o coração, com o estado emocional, com tudo! E estava certa: sua sogra realmente precisava de ajuda. Foi até um enfermeiro ou médico da ambulância e explicou a situação. Ele disse que nada podia fazer, que eles teriam que esperar, por sabe lá quanto tempo, até uma próxima ambulância chegar, pois nenhuma das 5 que lá estavam podiam socorrer aquela senhora, naquela hora... Esperaram, a ambulância chegou, mas só poderia levar duas pessoas: sua sogra e o irmão dele foram os escolhidos. Pois ela achava que estava bem. E sua irmã, mais uma médica, poderia leva-la pro hospital... Quanta sorte ter tantos médicos na família...
No caminho, completamente em transe, ela começou a se lembrar de algumas pessoas que precisavam ser avisadas: seu sogro (meus sais, como falar isso pra ele?!), amigos mais chegados, irmãos, seu chefe/amigo...pegou o celular e ligou uma vez para cada pessoa. Com quem conseguiu falar, falou.
No hospital, pediu para ser a última a ser examinada, pois achava que estava "normal". E estava. Não precisou de remédios, calmantes, controladores de pressão, anti-depressivos, nada. Nada... E ela ficou tão brava com ela mesma!!! Não conseguia chorar, não precisava de médicos, não tinha se alterado em nada. Como? Como, com uma notícia daquelas, ela não se alterara??? Como, como, como...
Chegou a duvidar do seu amor. Da sua sensibilidade. Da sua preocupação com o outro. Da sua maternidade. Da sua humanidade, mesmo!
Lembrou de seus pequenos e pediu que a levassem pra casa de sua mãe. Nem precisou virar a esquina para já perceber a quantidade de carros estacionados em toda a rua. Passava da meia-noite e muitos amigos estavam lá... Com os olhos, buscou sua mãe, a abraçou e só ouviu: "obrigada, filha. Obrigada por ser obediente ao seu marido...". A mãe dela sabia: sabia que, se ela tivesse ido junto, ela também estaria socorrendo as pessoas, ela também correria riscos, ela também estaria em perigo. E ela pediu para ir junto com ele. 4 vezes. E ele disse não. E ela obedeceu.
Não falou com mais ninguém e entrou para ver seus pequenos, que assistiam um filminho na sala, com um de seus tios. Achou melhor só olha-los pelo vidro e não atrapalha-los. Logo dormiriam. E não precisavam dormir com uma notícia daquelas. Eles só tinham 5 e 3 anos... Como se dá uma notícia dessa a crianças tão pequenas? Contar tudo, naquela hora, parecia a pior opção. Ela resolveu gerenciar sua dor, organizar o que precisasse ser organizado, chorar se conseguisse, e contar tudo no dia seguinte.
Entregou seu celular e o celular dele para uma das suas irmãs. E pediu para avisar todos os meninos das listas. Porque ela tinha amigas grávidas e/ou com bebês em casa. Não se dá uma notícia dessas, nesse horário, para mulheres grávidas, não é? Mas, os amigos precisavam ser avisados... muitos moravam longe e precisariam viajar logo cedo, no dia seguinte, se quisessem se despedir.
Quando todos foram embora, ela deitou na sala, mas não conseguiu dormir. Ela se sentia minúscula: nem dormir, conseguia! Como meia hora podia transformar vidas... pra sempre... irremediavelmente...
Mas, o sol nasceu. E esse foi o único pensamento que ela se lembra de ter tido, depois de ter entregue os celulares e virar um "zumbi", que cumprimentava amigos, recebia abraços, falava coisas, mas nada disso era consciente. "O sol nasceu. De novo. E vai nascer amanhã. E depois de amanhã... E depois de depois de amanhã..."
O telefone tocou e como ela era a única pessoa acordada, atendeu. Era da funerária. Perguntando se o caixão ficaria aberto ou fechado. Então, a ficha dela caiu... Aberto, por favor. Ela precisava se despedir... Acordou seu pai e fez um pedido tão absurdo, daqueles que só se faz para os pais, mesmo, quando você tem certeza de que é muito amada e vai ser compreendida: pediu que ele levantasse (depois de ter passado a noite quase toda no IML) e fosse pra funerária, enfaixasse o que precisasse ser enfaixado, arrumasse o que precisasse ser arrumado, para que o caixão ficasse aberto. E seu pai foi...
Era domingo. Com um sol lindo e pacífico, daqueles típicos de domingo, quando só se espera a vida passar tranquila. Daqueles que te convidam pra ir na igreja, que envolvem deliciosos almoços de família que terminam em sorvete, que são propícios para uma tarde na beira da piscina. Mas, tudo aquilo que era tão comum em todos os outros domingos, não aconteceria nesse.
Ela foi pro velório acompanhada de alguns queridos. As crianças ainda dormiam. Ela pediu para entrar na sala sozinha e assim aconteceu. Eles conversaram, só os dois, pela última vez. E ela prometeu cuidar das pessoas que eram queridas para ele, no lugar dele, do melhor jeito que ela conseguisse. Porque, na vida, é só isso que importa: as pessoas. E, naquele momento, isso era ainda mais claro!...
Abriu as portas. Dividiu com os outros o seu amor. Abraçou muitos. Consolou vários. Até mesmo lhe perguntaram, pessoas amigas da família dele (que não a conheciam bem), mais de uma vez, quem era a viúva. Pois ela não parecia se encaixar no perfil... Cuidou e foi cuidada. Quando soube que as crianças tinham acordado, fez uma reunião de família para saber o que fazer e como contar. Pai, mãe, irmã, irmão, cunhados.
De repente, no meio daquele turbilhão de emoções, onde ela se sentia como alguém que assiste um filme e fica torcendo pra mocinha se dar bem no final, ela saiu da sala - quando voltou, leu o nome dele na porta... e o seu, logo abaixo "deixa viúva a Sra. Miriane..."
E chorou. E se contorceu de dor. E se curvou. E chorou um daqueles choros incontroláveis que dão a sensação de que vão durar pra sempre...
Viúva. Viúva... Agora ela era viúva. Com 35 anos de idade: viúva. Mãe de uma criança de 3 anos: viúva. A mais velha de vários irmãos tão novos: viúva. Alegre, alto-astral, positiva, "poliana" até: viúva. Não combinava! Simplesmente, não combinava!!!! Não combinava...
Ela nem sabe quando parou de chorar ou quem a levantou do chão onde o seu corpo se curvou e ficou. Só se lembra que toda vez que lia aquela placa, o choro voltava, incontrolável, entorpecedor, até a cabeça latejar, faltar ar nos pulmões, o corpo desistir...
Dentro da sala, ela cantava. Pra ele. Ela conversava. Ela sorria. Fora da sala, em frente àquela placa, ela não existia. Era só dor!...
Até que fizeram sua última caminhada juntos. E choveu... E parecia filme... E ela foi pra casa dos seus pais (que foi pra onde a levaram, pois ela não tinha condições de pensar) e começou a viver o resto de sua vida...
(PS: quer ler a parte feliz desta história? Está aqui, na série "era uma vez")
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
A história do acidente
Jaú, 23 de janeiro de 2010.
Eles acordaram cedo, naquele sábado, como de costume. Tinham visitas da família dele em casa. Ficaram na cama por umas horas, ainda... se beijando, se abraçando, se observando, matando as saudades, colocando a conversa em dia. Ela morava em outra cidade, há um mês, por causa do novo trabalho, e ele ficava na cidade antiga. Só se viam à partir das sextas, à noite, até o domingo, à tarde.
Mas isso iria mudar: eles tinham ido pra cidade nova juntos, na semana anterior, para procurar uma casa. Aproveitaram as férias das crianças e as deixaram com a avó. E tiveram sua "semana de namorados"... Resolveram a vida: entregaram trabalhos atrasados, programaram projetos da igreja, alugaram a tal casa, matricularam as crianças numa escola próxima. Voltaram pra casa com sensação de dever cumprido. Conversando. Eles conversavam sempre. Sobre tudo! Sempre tinha sido assim: não eram só marido e mulher, eram melhores amigos.
Naquele sábado, estavam felizes e animados. A mudança sairia na próxima quarta. Era hora de despedir da cidade antiga e seguir para novos projetos. Agora, seriam só eles 4: pai, mãe, filho e filha. No lugar deles, na familia deles, no ritmo deles, na vida deles.
Então, ele quis comemorar! O que era estranho porque ela era "a social" e ele era "o reservado". Mas, ele sugeriu que se convidasse toda a família dela (que morava na cidade antiga, onde eles ainda estavam) para almoçar na casa deles, com a família dele, que já estava lá. O cardápio já estava decidido: comida chinesa pra todos - comida japonesa para ela, ele e o pai dela.
E assim se fez. Convidaram todo mundo. Pais, mães, irmãos, irmãs, cunhados, sobrinho. Quase todo mundo foi... E passaram uma tarde ótima! Brincaram, conversaram, comeram, fizeram competição de video-game, os netos ganharam historinhas contadas pelo avô, deitados na rede. Até resolveram que seria um bom dia para a estréia do brinquedo novo (de Natal) do filho: um helicóptero. E todos os meninos foram para a praça, que ficava na frente da casa, para colocar o helicóptero pra voar. Na última hora, a filha resolveu ir também, no meio daquele monte de meninos. Depois de um tempão, voltaram. E a menininha disse: "hoje é o dia mais feliz da minha vida!"
Realmente, era um dia muito muito bom. Tão bom que eles ficaram "almoçando" até às 8hs da noite. Quando ele decidiu que era hora de levar sua mãe e seu irmão de volta pra cidade deles, que ficava a poucos quilometros de distância. Trocou de roupas, deixou a roupa confortável e velhinha pendurada atrás da porta, pois voltaria muito rápido e aquela era sua vestimenta predileta para ficar em casa. Em meia hora, deixaria seus parentes na casa deles. E mais meia hora, estaria de volta. Pronto pra colocar suas roupas confortáveis, de novo, e aproveitar o restinho da noite de sábado.
Ela quis ir junto. Estava com saudades, pois eles tinham passado a semana toda separados! E eles estavam no esquema "namorados", naqueles dias: como só se viam de final de semana, ficavam grudados o tempo todo! Ela pediu várias vezes para acompanha-lo. Com as crianças. Sem as crianças. Se fossem só os 2, poderiam parar em algum lugar para namorar, na volta. Ele insistia para que ela ficasse. Ela já tinha viajado na sexta e viajaria, de novo, no domingo. "Fique Mirys. Vá pra casa da sua mãe, com as crianças, pra não ficar sozinha. Daqui a pouquinho eu já volto e passo por lá pegar vocês."
Quando ele deu um selinho nela para avisar que estava partindo (eles tinham essa coisa entre eles: nunca ir, chegar ou dormir sem um beijo. Por menor que fosse), ela fez o comentário tonto mais importante da vida dela: "Fer... você não escovou os dentes depois do almoço, escovou?" Coisa que só a intimidade de 11 anos de casamento permitia. "Ai, Mirys! Você encana com cada coisa, viu?.." Minutos depois, voltou na cozinha, para se despedir de quem estava lá - e dela, pela segunda vez. "Pronto. Escovei os dentes. Satisfeita?" "Ainda não. Agora, você me dá um beijo decente!.." E se beijaram como deveria sempre ser. E ele partiu.
Meia hora depois, na casa dos pais dela, o filho tomava banho e a filha assistia algum desenho pra crianças de 3 anos, abraçada na mãe. Quando o avô - pai dela - desceu correndo as escadas, falando muito alto pelo celular. Ele nunca fazia isso... era uma das pessoas mais calmas, e alegres, e tranquilas, e sensatas que ela conhecia. Até que ela ouviu o nome da sogra sendo falado. E disse pra sua mãe que devia ter acontecido alguma coisa... ela deixaria sua filhinha ali, seu filhinho no banho, e iria acompanhar seu pai, aonde quer que ele estivesse indo. Procuraram por outros adultos para acompanha-los, mas não encontraram. Pegaram o carro e foram pra estrada.
Eles sabiam que havia tido um acidente, mas o carro da família não estava envolvido. "Parece que foi bem perto de Bauru, Mirys. Na outra ponta da estrada. Tente avisar seu tio, que mora lá, para que ele vá até o local. Ele deve chegar antes da gente.", disse o pai dela. Ela tentou, tentou e tentou e não conseguiu avisar seu tio. Então, ligou para um grande amigo e pediu para que ele fosse até a estrada.
Um carro tinha sido abastecido num posto, no meio da estrada. E, ao invés de andar 400 metros e pegar o primeiro retorno, decidiu voltar, na contramão, por um quilometro, para chegar num distrito que existia no meio do caminho. Só que aquela era uma estrada grande. 2, 3 pistas de cada lado. Canteiro no meio. Pedagiada. Era absurdo alguém pensar em andar na contramão. Mas, aquele motorista pensou... Quando estava a poucos metros da entrada do vilarejo, ele bateu num primeiro carro, e num segundo, e num terceiro. Logo depois, 2 carros pararam no acostamento e os motoristas desceram para ajudar. O primeiro carro que tinha sido acertado só de raspão também conseguiu parar e seu motorista desceu pra ajudar. Um dos carros acertados pegava fogo... e as pessoas não conseguiam sair de dentro do veículo. Então, 3 homens tinham descido de seus próprios carros, levado seus extintores e apagado o fogo.
O marido dela ainda chegou a voltar em seu carro, pediu para seu irmão ligar para o socorro, pois as pessoas estavam feridas. Ele iria voltar para o carro queimado, tentar tirar as pessoas de dentro, junto com aqueles dois outros que estavam ajudando. Foi quando mais um veículo veio... e não viu um acidente daquele tamanho... nem os carros parados no acostamento... no meio de uma subida (depois de uma imensa descida)... e acertou a lateral do carro que estava sendo socorrido, atropelando os 3 homens que estavam salvando aquelas pessoas dentro do veículo.
Voltando para ela. Minutos depois de todo esse ocorrido, ela pegava a mesma estrada, com seu pai. Telefonava loucamente para seus tios, tentando falar com alguém. Porque se ele estivesse ferido e inconsciente, ela queria que tivesse alguém por lá, conhecido, que falasse para ele ficar tranquilo, que o acompanhasse a um hospital, que lhe avisasse que ela já estava chegando. Ela estaria ali! Com ele. É claro que ela estaria ali, com ele. Ela sempre estava com ele, nos últimos 15 anos da vida deles!
Quando passaram o posto policial, ela ligou pra emergência, para ver se tinha alguma informação. Até do lugar exato, pois ela não sabia a quantos quilometros da cidade dos pais dele o acidente tinha ocorrido. Ela só sabia que era mais pra Bauru do que pra Jaú (cidade deles). Ela perguntou pelos feridos e soube que "eram muitos". Ela perguntou por ele e foi informada que "eles não podiam precisar quem era quem no acidente e que tinham ambulâncias de três cidades diferentes socorrendo os feridos". Ela perguntou para qual hospital seria levados e o homem do outro lado da linha ficou mudo. Então, ela perguntou se ele poderia dizer, de maneira geral, qual era a situação daqueles que ele chamava de "vítimas envolvidas". E a resposta que ouviu foi "temos vítimas em todos os estados. Se é que a senhora me entende." Ela entendeu. Desligou. Quis tranquilizar seu pai: "pode ir, paizinho. Que o acidente é perto de Bauru. Mas já tem ambulâncias de 3 cidades por lá. As pessoas vão ser levadas para hospitais de Bauru, mesmo. E o meu amigo já está indo pra lá, ficar com o Fer, até a gente chegar."
Nessa hora, ela não se lembra, mas seu pai disse que ela fez uma oração, em voz alta. "Senhor, eu aceito. Se o senhor me devolver o Fer muito machucado, eu aceito. Se eu tiver que largar meu emprego para cuidar dele, por meses, eu aceito. Se eu tiver um marido sem um braço ou uma perna, eu aceito. Se ele ficar incosciente por meses, eu aceito." Deve ter sido qualquer coisa assim (porque, hoje, dois anos depois, ela não se lembra). Mas ela não incluiu em sua oração, em nenhum momento, a possibilidade de ninguém lhe devolver o seu marido. Isso não era uma opção. Qualquer outra situação, ela resolveria, aceitaria, gerenciaria. Mas, não te-lo mais, nunca mais, nem passou pela cabeça dela.
Quando estavam a quilometros do acidente, no início da descida que antecedia o local, ela já viu o "circo". Carros amassados, lá em cima da subida... carros parados no acostamento ainda com os pisca-alerta ligados... outros carros parados... caminhões bloqueavam o início da subida... ambulâncias... sirenes... gente. Muita gente. Eles pararam o carro do pai dela atrás dos caminhões e sairam correndo. Ela nem se lembra se fecharam o carro, mas ela tem a impressão de que largaram até as portas abertas. Ela avistou seu carro, parado do lado direito, com sua sogra e cunhado do lado de fora. "Paizinho, o senhor vai descobrir para qual hospital levaram o Fer e eu vou ver minha sogra". Afinal, seu pai era médico e era claro que os enfermeiros da ambulância dariam informações melhores a ele do que a uma "outra esposa agitada" que fica perguntando pelo marido, atrapalhando o trabalho deles. E ela conhecia sua sogra e seu cunhado - sabia que devido à idade dela, à doença dele, ao perfil dos dois, eles deviam estar precisando de ajuda, de alguém "forte" que dissesse "deixa que eu resolvo". Como ele fazia. Sempre. Ela queria fazer o papel que era dele, agora.
Ela chegou, viu que a mãe e o irmão dele não estavam machucados, e os abraçou. Ficaram os três abraçados, encostados no carro, orando (a mãe dele pediu que ela orasse "porque ela sempre era melhor nisso"), quando ela viu seu pai vindo correndo na direção deles. Ele corria! Deviam ser boas notícias, do tipo "vamos, rápido! Ele está no hospital X. Vamos para lá. Se apressem!". Eles abriram o abraço e encostaram os três, no carro, esperando o pai dela chegar. Foi quando, a poucos passos, ele parou de correr. Exausto. Chorando. Então, ela soube...
"O nosso menino se foi". Essas foram as palavras que mudaram a vida dela pra sempre. O pai dela abraçou os três, aquela família que também já era dele. A mãe dele gritava. As pessoas que estavam por ali, ajudando, vieram fazer parte daquele abraço, cheio de palavras de conforto. Mas, ela não conseguia respirar... Tinha muita gente ali, muito abraço, muitas vozes, mas nenhuma era ele, o abraço dele, a voz dele.
Então, ela foi mal educada como nunca tinha sido na vida. Empurrou todo mundo, explicando que não conseguia respirar, e foi se sentar, sozinha, na beirada do asfalto. Ela não conseguia chorar. Não conseguia... Ela não tinha perdido só o ar: tinha perdido o chão, as lágrimas, o sentido. Ela tinha perdido tudo. Tudo...
Foi nessa hora que ela sentiu uma mão no seu ombro. Olhou pra trás e viu seu amigo. Aquele pra quem ela tinha ligado para ele "acompanhar o Fer para o hospital e assegura-lo que ela logo estaria ali".
"G. Você viu? Era o Fer, mesmo?"
"Era, Mirys"
"E... ele ainda está aqui?"
"Está Mirys"
"Eu devo ir lá, ver?"
"Não Mirys. Não..."
E ela não foi.
(Essa história aconteceu há exatos 2 anos. Mas eu não tinha tido coragem de registrá-la, até agora. Parecia que se eu fizesse isso, ela ficaria real. Mas... ela já é real. Ela é real pra mim e pro Guigo e pra Nina há 2 anos. Nenhuma palavra que eu não escrevesse iria mudar isso. Então, resolvi compartilhar. Agora que já assimilei isso como parte da minha vida. Agora que eu ainda não entendo, mas já aceito. Para que outros tomem cuidado na estrada, para que não dirijam na contramão, nem corram, nem se distraiam trocando o som, nem "não vejam" o que acontece na sua frente... Se isso evitar que uma, apenas uma outra família passe por essa perda, já terá valido a pena.)
PS: hoje, estou fora do ar. Esta mensagem foi programada. Não vou responde-la, nem vou autorizar comentários, no dia de hoje. Hoje, o dia é meu e dos meus filhos. De celebrar a minha família LINDA que ainda está aqui. Responderei a todas as mensagens o mais breve possível, mas não hoje. Espero que entendam....
Eles acordaram cedo, naquele sábado, como de costume. Tinham visitas da família dele em casa. Ficaram na cama por umas horas, ainda... se beijando, se abraçando, se observando, matando as saudades, colocando a conversa em dia. Ela morava em outra cidade, há um mês, por causa do novo trabalho, e ele ficava na cidade antiga. Só se viam à partir das sextas, à noite, até o domingo, à tarde.
Mas isso iria mudar: eles tinham ido pra cidade nova juntos, na semana anterior, para procurar uma casa. Aproveitaram as férias das crianças e as deixaram com a avó. E tiveram sua "semana de namorados"... Resolveram a vida: entregaram trabalhos atrasados, programaram projetos da igreja, alugaram a tal casa, matricularam as crianças numa escola próxima. Voltaram pra casa com sensação de dever cumprido. Conversando. Eles conversavam sempre. Sobre tudo! Sempre tinha sido assim: não eram só marido e mulher, eram melhores amigos.
Naquele sábado, estavam felizes e animados. A mudança sairia na próxima quarta. Era hora de despedir da cidade antiga e seguir para novos projetos. Agora, seriam só eles 4: pai, mãe, filho e filha. No lugar deles, na familia deles, no ritmo deles, na vida deles.
Então, ele quis comemorar! O que era estranho porque ela era "a social" e ele era "o reservado". Mas, ele sugeriu que se convidasse toda a família dela (que morava na cidade antiga, onde eles ainda estavam) para almoçar na casa deles, com a família dele, que já estava lá. O cardápio já estava decidido: comida chinesa pra todos - comida japonesa para ela, ele e o pai dela.
E assim se fez. Convidaram todo mundo. Pais, mães, irmãos, irmãs, cunhados, sobrinho. Quase todo mundo foi... E passaram uma tarde ótima! Brincaram, conversaram, comeram, fizeram competição de video-game, os netos ganharam historinhas contadas pelo avô, deitados na rede. Até resolveram que seria um bom dia para a estréia do brinquedo novo (de Natal) do filho: um helicóptero. E todos os meninos foram para a praça, que ficava na frente da casa, para colocar o helicóptero pra voar. Na última hora, a filha resolveu ir também, no meio daquele monte de meninos. Depois de um tempão, voltaram. E a menininha disse: "hoje é o dia mais feliz da minha vida!"
Realmente, era um dia muito muito bom. Tão bom que eles ficaram "almoçando" até às 8hs da noite. Quando ele decidiu que era hora de levar sua mãe e seu irmão de volta pra cidade deles, que ficava a poucos quilometros de distância. Trocou de roupas, deixou a roupa confortável e velhinha pendurada atrás da porta, pois voltaria muito rápido e aquela era sua vestimenta predileta para ficar em casa. Em meia hora, deixaria seus parentes na casa deles. E mais meia hora, estaria de volta. Pronto pra colocar suas roupas confortáveis, de novo, e aproveitar o restinho da noite de sábado.
Ela quis ir junto. Estava com saudades, pois eles tinham passado a semana toda separados! E eles estavam no esquema "namorados", naqueles dias: como só se viam de final de semana, ficavam grudados o tempo todo! Ela pediu várias vezes para acompanha-lo. Com as crianças. Sem as crianças. Se fossem só os 2, poderiam parar em algum lugar para namorar, na volta. Ele insistia para que ela ficasse. Ela já tinha viajado na sexta e viajaria, de novo, no domingo. "Fique Mirys. Vá pra casa da sua mãe, com as crianças, pra não ficar sozinha. Daqui a pouquinho eu já volto e passo por lá pegar vocês."
Quando ele deu um selinho nela para avisar que estava partindo (eles tinham essa coisa entre eles: nunca ir, chegar ou dormir sem um beijo. Por menor que fosse), ela fez o comentário tonto mais importante da vida dela: "Fer... você não escovou os dentes depois do almoço, escovou?" Coisa que só a intimidade de 11 anos de casamento permitia. "Ai, Mirys! Você encana com cada coisa, viu?.." Minutos depois, voltou na cozinha, para se despedir de quem estava lá - e dela, pela segunda vez. "Pronto. Escovei os dentes. Satisfeita?" "Ainda não. Agora, você me dá um beijo decente!.." E se beijaram como deveria sempre ser. E ele partiu.
Meia hora depois, na casa dos pais dela, o filho tomava banho e a filha assistia algum desenho pra crianças de 3 anos, abraçada na mãe. Quando o avô - pai dela - desceu correndo as escadas, falando muito alto pelo celular. Ele nunca fazia isso... era uma das pessoas mais calmas, e alegres, e tranquilas, e sensatas que ela conhecia. Até que ela ouviu o nome da sogra sendo falado. E disse pra sua mãe que devia ter acontecido alguma coisa... ela deixaria sua filhinha ali, seu filhinho no banho, e iria acompanhar seu pai, aonde quer que ele estivesse indo. Procuraram por outros adultos para acompanha-los, mas não encontraram. Pegaram o carro e foram pra estrada.
Eles sabiam que havia tido um acidente, mas o carro da família não estava envolvido. "Parece que foi bem perto de Bauru, Mirys. Na outra ponta da estrada. Tente avisar seu tio, que mora lá, para que ele vá até o local. Ele deve chegar antes da gente.", disse o pai dela. Ela tentou, tentou e tentou e não conseguiu avisar seu tio. Então, ligou para um grande amigo e pediu para que ele fosse até a estrada.
Um carro tinha sido abastecido num posto, no meio da estrada. E, ao invés de andar 400 metros e pegar o primeiro retorno, decidiu voltar, na contramão, por um quilometro, para chegar num distrito que existia no meio do caminho. Só que aquela era uma estrada grande. 2, 3 pistas de cada lado. Canteiro no meio. Pedagiada. Era absurdo alguém pensar em andar na contramão. Mas, aquele motorista pensou... Quando estava a poucos metros da entrada do vilarejo, ele bateu num primeiro carro, e num segundo, e num terceiro. Logo depois, 2 carros pararam no acostamento e os motoristas desceram para ajudar. O primeiro carro que tinha sido acertado só de raspão também conseguiu parar e seu motorista desceu pra ajudar. Um dos carros acertados pegava fogo... e as pessoas não conseguiam sair de dentro do veículo. Então, 3 homens tinham descido de seus próprios carros, levado seus extintores e apagado o fogo.
O marido dela ainda chegou a voltar em seu carro, pediu para seu irmão ligar para o socorro, pois as pessoas estavam feridas. Ele iria voltar para o carro queimado, tentar tirar as pessoas de dentro, junto com aqueles dois outros que estavam ajudando. Foi quando mais um veículo veio... e não viu um acidente daquele tamanho... nem os carros parados no acostamento... no meio de uma subida (depois de uma imensa descida)... e acertou a lateral do carro que estava sendo socorrido, atropelando os 3 homens que estavam salvando aquelas pessoas dentro do veículo.
Voltando para ela. Minutos depois de todo esse ocorrido, ela pegava a mesma estrada, com seu pai. Telefonava loucamente para seus tios, tentando falar com alguém. Porque se ele estivesse ferido e inconsciente, ela queria que tivesse alguém por lá, conhecido, que falasse para ele ficar tranquilo, que o acompanhasse a um hospital, que lhe avisasse que ela já estava chegando. Ela estaria ali! Com ele. É claro que ela estaria ali, com ele. Ela sempre estava com ele, nos últimos 15 anos da vida deles!
Quando passaram o posto policial, ela ligou pra emergência, para ver se tinha alguma informação. Até do lugar exato, pois ela não sabia a quantos quilometros da cidade dos pais dele o acidente tinha ocorrido. Ela só sabia que era mais pra Bauru do que pra Jaú (cidade deles). Ela perguntou pelos feridos e soube que "eram muitos". Ela perguntou por ele e foi informada que "eles não podiam precisar quem era quem no acidente e que tinham ambulâncias de três cidades diferentes socorrendo os feridos". Ela perguntou para qual hospital seria levados e o homem do outro lado da linha ficou mudo. Então, ela perguntou se ele poderia dizer, de maneira geral, qual era a situação daqueles que ele chamava de "vítimas envolvidas". E a resposta que ouviu foi "temos vítimas em todos os estados. Se é que a senhora me entende." Ela entendeu. Desligou. Quis tranquilizar seu pai: "pode ir, paizinho. Que o acidente é perto de Bauru. Mas já tem ambulâncias de 3 cidades por lá. As pessoas vão ser levadas para hospitais de Bauru, mesmo. E o meu amigo já está indo pra lá, ficar com o Fer, até a gente chegar."
Nessa hora, ela não se lembra, mas seu pai disse que ela fez uma oração, em voz alta. "Senhor, eu aceito. Se o senhor me devolver o Fer muito machucado, eu aceito. Se eu tiver que largar meu emprego para cuidar dele, por meses, eu aceito. Se eu tiver um marido sem um braço ou uma perna, eu aceito. Se ele ficar incosciente por meses, eu aceito." Deve ter sido qualquer coisa assim (porque, hoje, dois anos depois, ela não se lembra). Mas ela não incluiu em sua oração, em nenhum momento, a possibilidade de ninguém lhe devolver o seu marido. Isso não era uma opção. Qualquer outra situação, ela resolveria, aceitaria, gerenciaria. Mas, não te-lo mais, nunca mais, nem passou pela cabeça dela.
Quando estavam a quilometros do acidente, no início da descida que antecedia o local, ela já viu o "circo". Carros amassados, lá em cima da subida... carros parados no acostamento ainda com os pisca-alerta ligados... outros carros parados... caminhões bloqueavam o início da subida... ambulâncias... sirenes... gente. Muita gente. Eles pararam o carro do pai dela atrás dos caminhões e sairam correndo. Ela nem se lembra se fecharam o carro, mas ela tem a impressão de que largaram até as portas abertas. Ela avistou seu carro, parado do lado direito, com sua sogra e cunhado do lado de fora. "Paizinho, o senhor vai descobrir para qual hospital levaram o Fer e eu vou ver minha sogra". Afinal, seu pai era médico e era claro que os enfermeiros da ambulância dariam informações melhores a ele do que a uma "outra esposa agitada" que fica perguntando pelo marido, atrapalhando o trabalho deles. E ela conhecia sua sogra e seu cunhado - sabia que devido à idade dela, à doença dele, ao perfil dos dois, eles deviam estar precisando de ajuda, de alguém "forte" que dissesse "deixa que eu resolvo". Como ele fazia. Sempre. Ela queria fazer o papel que era dele, agora.
Ela chegou, viu que a mãe e o irmão dele não estavam machucados, e os abraçou. Ficaram os três abraçados, encostados no carro, orando (a mãe dele pediu que ela orasse "porque ela sempre era melhor nisso"), quando ela viu seu pai vindo correndo na direção deles. Ele corria! Deviam ser boas notícias, do tipo "vamos, rápido! Ele está no hospital X. Vamos para lá. Se apressem!". Eles abriram o abraço e encostaram os três, no carro, esperando o pai dela chegar. Foi quando, a poucos passos, ele parou de correr. Exausto. Chorando. Então, ela soube...
"O nosso menino se foi". Essas foram as palavras que mudaram a vida dela pra sempre. O pai dela abraçou os três, aquela família que também já era dele. A mãe dele gritava. As pessoas que estavam por ali, ajudando, vieram fazer parte daquele abraço, cheio de palavras de conforto. Mas, ela não conseguia respirar... Tinha muita gente ali, muito abraço, muitas vozes, mas nenhuma era ele, o abraço dele, a voz dele.
Então, ela foi mal educada como nunca tinha sido na vida. Empurrou todo mundo, explicando que não conseguia respirar, e foi se sentar, sozinha, na beirada do asfalto. Ela não conseguia chorar. Não conseguia... Ela não tinha perdido só o ar: tinha perdido o chão, as lágrimas, o sentido. Ela tinha perdido tudo. Tudo...
Foi nessa hora que ela sentiu uma mão no seu ombro. Olhou pra trás e viu seu amigo. Aquele pra quem ela tinha ligado para ele "acompanhar o Fer para o hospital e assegura-lo que ela logo estaria ali".
"G. Você viu? Era o Fer, mesmo?"
"Era, Mirys"
"E... ele ainda está aqui?"
"Está Mirys"
"Eu devo ir lá, ver?"
"Não Mirys. Não..."
E ela não foi.
(Essa história aconteceu há exatos 2 anos. Mas eu não tinha tido coragem de registrá-la, até agora. Parecia que se eu fizesse isso, ela ficaria real. Mas... ela já é real. Ela é real pra mim e pro Guigo e pra Nina há 2 anos. Nenhuma palavra que eu não escrevesse iria mudar isso. Então, resolvi compartilhar. Agora que já assimilei isso como parte da minha vida. Agora que eu ainda não entendo, mas já aceito. Para que outros tomem cuidado na estrada, para que não dirijam na contramão, nem corram, nem se distraiam trocando o som, nem "não vejam" o que acontece na sua frente... Se isso evitar que uma, apenas uma outra família passe por essa perda, já terá valido a pena.)
PS: hoje, estou fora do ar. Esta mensagem foi programada. Não vou responde-la, nem vou autorizar comentários, no dia de hoje. Hoje, o dia é meu e dos meus filhos. De celebrar a minha família LINDA que ainda está aqui. Responderei a todas as mensagens o mais breve possível, mas não hoje. Espero que entendam....
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Conversa Difícil... (Diário do Guigo)
Ontem, voltávamos da igreja, à noite, só eu e a mãmi. Quando chegou mensagem no celular dela, eu pedi pra ler (ela estava dirigindo, né galera?!) e ela deixou. E nós começamos a conversar...
Guigo: "Mãmi, é melhor você ter só amigos, mesmo... não é?"
Mãmi: "Por que, filhote? Não seria legal se, um dia, a mamãe tivesse um namorado?"
Guigo: "Não... é melhor só ter amigos, mesmo."
Mãmi: "Mas, Guigo, por que a mãmi não pode ter um namorado, de novo, um dia?" (silêncio) "Não seria legal termos mais alguém pras nossas aventuras?..." (silêncio) "Filhote, eu quero que você sempre converse comigo, tá? Pode me dizer o que você pensa, que a mamãe vai te ouvir."
Guigo: "Mas, mãmi. Você já tem filhotes. Não é o BASTANTE?"
Andamos em silêncio, por uns quarteirões. E eu comecei a falar do Nono e de que eu adorava a casa dele, sempre com um monte de gente.
Mãmi: "Então, filhote. O Nono tem uma namorada E tem 10 filhotes! Viu? Não é legal?"
Guigo: "É, mãe. É muito legal."
Mãmi: "Então, Gui. O Nono tem filhotes E namorada. Por que que a mãmi não pode ter as duas coisas, também?"
Guigo: "Porque a namorada do Nono não se enfiou naquele carro que bateu!"
Assunto encerrado, por mais uns quarteirões. A gente nunca tinha conversado sobre isso, antes. E já vai fazer 2 anos, daqui uns dias, que somos só nós 3: eu, a mãmi e a Nina. Mas, eu nunca puxei o assunto, antes. Nem a mãmi quis forçar a conversa comigo...
Guigo: "Mãmi, eu preferia que VOCÊ estivesse naquele carro..."
Mãmi: "Que carro, Guigo?"
Guigo: "Naquele carro que bateu."
Mãmi (já pensando, nas sua cabecinha boba feminina, que eu preferia que ela tivesse morrido e o papai tivesse ficado): "Por que, filhote?"
Guigo: "Porque todo mundo sabe que você é 'piloto', mãmi. Você dirige melhor do que o papai. Você não ia ter batido o carro!"
(PS: se você ainda não conhece a nossa história e não entendeu direito esse post, clique nos ícones "início" ou "explicações" aí abaixo, que você vai parar numa página com alguns posts que nos explicam...)
Guigo: "Mãmi, é melhor você ter só amigos, mesmo... não é?"
Mãmi: "Por que, filhote? Não seria legal se, um dia, a mamãe tivesse um namorado?"
Guigo: "Não... é melhor só ter amigos, mesmo."
Mãmi: "Mas, Guigo, por que a mãmi não pode ter um namorado, de novo, um dia?" (silêncio) "Não seria legal termos mais alguém pras nossas aventuras?..." (silêncio) "Filhote, eu quero que você sempre converse comigo, tá? Pode me dizer o que você pensa, que a mamãe vai te ouvir."
Guigo: "Mas, mãmi. Você já tem filhotes. Não é o BASTANTE?"
Andamos em silêncio, por uns quarteirões. E eu comecei a falar do Nono e de que eu adorava a casa dele, sempre com um monte de gente.
Mãmi: "Então, filhote. O Nono tem uma namorada E tem 10 filhotes! Viu? Não é legal?"
Guigo: "É, mãe. É muito legal."
Mãmi: "Então, Gui. O Nono tem filhotes E namorada. Por que que a mãmi não pode ter as duas coisas, também?"
Guigo: "Porque a namorada do Nono não se enfiou naquele carro que bateu!"
Assunto encerrado, por mais uns quarteirões. A gente nunca tinha conversado sobre isso, antes. E já vai fazer 2 anos, daqui uns dias, que somos só nós 3: eu, a mãmi e a Nina. Mas, eu nunca puxei o assunto, antes. Nem a mãmi quis forçar a conversa comigo...
Guigo: "Mãmi, eu preferia que VOCÊ estivesse naquele carro..."
Mãmi: "Que carro, Guigo?"
Guigo: "Naquele carro que bateu."
Mãmi (já pensando, nas sua cabecinha boba feminina, que eu preferia que ela tivesse morrido e o papai tivesse ficado): "Por que, filhote?"
Guigo: "Porque todo mundo sabe que você é 'piloto', mãmi. Você dirige melhor do que o papai. Você não ia ter batido o carro!"
(PS: se você ainda não conhece a nossa história e não entendeu direito esse post, clique nos ícones "início" ou "explicações" aí abaixo, que você vai parar numa página com alguns posts que nos explicam...)
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quinta-feira, 14 de julho de 2011
"Você não está exagerando?..." (Diário da Mirys)
Ouvi isso, ontem, e estou pensando nessa frase até agora. Vou situar você no contexto da coisa toda e você me dá sua opinião sincera? Promete???
Vamos lá. Meu pai sofreu um acidente de carro, na mesma estrada em que o pai das crianças sofreu um acidente (e faleceu...), no ano passado. Também era noite. A culpa também não foi dele (motoristas imprudentes SEMPRE existem nas estradas, pessoal! Sempre! Fiquem atentos!). As coincidências param por aí (graças a Deus).
O carro do meu pai ficou destruído (pelo que me disseram - eu não vi). O carro do Fer ficou intacto. Meu pai está vivo e milagrosamente bem (considerando o tamanho do acidente). O Fer não.
Então que, na noite de segunda, eu recebo uma informação por celular (eu moro em outra cidade) juntando, na mesma frase, as palavras "acidente + estrada Jaú / Bauru + pai". Tanto faz o meu ou o das crianças, tanto faz o resto da frase ("ele está bem"), tanto faz que O MUNDO estava com meu pai no hospital e ele já tinha sido analisado do dedão do pé ao último fio de cabelo. Meu chão sumiu... o ar faltou... a janta ficou a meio caminho da boca... e aquela sensação horrível de impotência, de falta de controle sobre a vida, voltou. Com toda a intensidade que poderia voltar!
Me descobri muito prática, muito razoável, muito sensata (pra mim, tá?). Quando percebi que não era trote, que aquilo tudo estava, sim, acontecendo (de novo), eu dei um longo respiro e tentei ser organizada. Liguei para quem podia me passar as melhores informações sobre meu pai (os médicos - amigos, filha, filho), confirmei onde estavam as crianças (com uma amiga/irmã) e se já sabiam (não), coloquei os celulares para carregar, avisei meus chefes do trabalho, vi a necessidade de ir para Jaú.
Como não havia NECESSIDADE alguma (fora o meu coração de filha), não fui. Além do que, meu pai acabou me ligando e me pedindo para não pegar a estrada à noite. Mas eu já estava decidida que não pegaria. INFELIZMENTE, por mais frio e insensível que possa parecer, os meus dois pequenos, agora, só têm a mim. Então, não posso me dar ao luxo de correr riscos desnecessários, do tipo pegar o carro correndinho e ir para uma cidade há 80 km de distância, só pra ver, com meus próprios olhos, que meu pai estava bem machucado, mas não corria risco algum.
Não fui pra Jaú, na terça, também, porque a alta médica prometida não aconteceu e meu pai dormiu mais uma noite sob observação (e mais uma vez me pediu para não pegar a estrada). Conversando com a minha cunhada, achei melhor que as crianças não fossem levadas para ver o avô, na terça(no hospital), porque eu achava que seria melhor que eu estivesse por perto quando eles soubessem da história.
Isso porque, quando aconteceu o acidente do Fer, o Guigo chegou a questionar com algumas pessoas se "era verdade" que o pai dele tinha sofrido um acidente porque "ele tinha visto o carro e o carro não tinha nem um amassadinho". Daí, eu fiquei imaginando como seria para ele ouvir que o vovô tinha sofrido um acidente, mas que estava bem, apesar do carro todo amassado (PS: o Guigo A-M-A carros e provavelmente iria perguntar dele). Como seria???
Não sou profissional da área e o Guigo está fazendo acompanhamento com uma psicóloga EXCELENTE, aqui da nossa cidade. Eu não tive dúvidas e liguei pra ela. Contei o ocorrido e perguntei como deveria proceder. Ela me instruiu a eu mesma contar a notícia (como eu tinha imaginado), na casa do avô, com o avô lá, na frente das crianças. Para não dar tempo deles criarem nenhuma fantasia na cabecinha deles, nem nada. Para mostrar que, sim, todos estamos sujeitos a acidentes (sem falar isso, né?) e temos que ser cuidadosos, mas que as histórias podem ser diferentes.
Eu fiz exatamente isso. Cheguei em Jaú, fui ver meu pai (vai que EU tivesse uma crise?!), senti um embrulho no estômago quando vi a garagem vazia, mas não tive nada demais quando o vi na cama dele, com machucados nas pernas, pés e mãos. Aparentemente, por fora, ele não tinha se machucado muito mesmo (Deus abençoe os inventores do cinto de segurança e do airbag). Só depois busquei as crianças na minha cunhada e os levei para a casa do avô.
Chegando lá, eles correram pro quarto para dar beijos, como sempre fazem. O Guigo nem percebeu os machucados e foi se jogando na barriga do meu pai (dolorida, coitado!). Quando a Helena chegou abraçando as pernas, meu pai pediu que ela tivesse cuidado com os "dodóis" dele. E ela mandou: "-O que você fez?". Ele brincou, disse que tinha caído correndo (como uma criança faria) e eles morreram de rir. E ela perguntou, de novo: "- Não, sério. O que você fez?". Ele, que já tinha amenizado a situação, contou que tinha tido um acidente na estrada, tinha batido com um caminhão, mas que, agora, já estava tudo bem. E as crianças só ficaram falando que sairiam para um aniversário comigo, se ele não queria ir junto, se podiam tomar banho na banheira dele, etc... Enfim: o vovô sofreu um acidente, mas está bem, como a gente viu com os nossos próprios olhos. Então, vamos falar de coisas legais!
Eu fui jantar com os pequenos, feliz e aliviada por causa da reação ótima deles. Eles não tinham tido nenhum sentimento ruim, nenhum medo, nenhuma inquietação (como eu tive, sabendo do acidente e não vendo o meu pai). A simplicidade de vida deles me deu inveja...
No meio do jantar, toda a família (menos meu pai e minha mãe) reunida, e eu respondendo às perguntas: "como você está?", "como ficou sabendo?", "como fez com as crianças?". E, pra última pergunta, eu contei do aconselhamento com a psicóloga, do fazer questão de estar lá no momento em que eles soubessem da notícia, da reação ótima deles. E, de uma pessoa que eu considero MUITO e sempre me dá palavras muito sensatas, eu ouvi: "você não acha que exagerou, não?"
E aí... exagerei?
PS: um dos grandes problemas de ser viúva precoce é o de (graças a Deus) não ter parâmetros ou alguém a quem imitar. Não conheço, pessoalmente, ninguém na minha situação. Então, às vezes, não sei exatamente como deveria agir, o que dá certo, o que não dá... Mas, continuo tentando! Com um sorriso no rosto (porque esse SEMPRE dá certo).
Vamos lá. Meu pai sofreu um acidente de carro, na mesma estrada em que o pai das crianças sofreu um acidente (e faleceu...), no ano passado. Também era noite. A culpa também não foi dele (motoristas imprudentes SEMPRE existem nas estradas, pessoal! Sempre! Fiquem atentos!). As coincidências param por aí (graças a Deus).
O carro do meu pai ficou destruído (pelo que me disseram - eu não vi). O carro do Fer ficou intacto. Meu pai está vivo e milagrosamente bem (considerando o tamanho do acidente). O Fer não.
Então que, na noite de segunda, eu recebo uma informação por celular (eu moro em outra cidade) juntando, na mesma frase, as palavras "acidente + estrada Jaú / Bauru + pai". Tanto faz o meu ou o das crianças, tanto faz o resto da frase ("ele está bem"), tanto faz que O MUNDO estava com meu pai no hospital e ele já tinha sido analisado do dedão do pé ao último fio de cabelo. Meu chão sumiu... o ar faltou... a janta ficou a meio caminho da boca... e aquela sensação horrível de impotência, de falta de controle sobre a vida, voltou. Com toda a intensidade que poderia voltar!
Me descobri muito prática, muito razoável, muito sensata (pra mim, tá?). Quando percebi que não era trote, que aquilo tudo estava, sim, acontecendo (de novo), eu dei um longo respiro e tentei ser organizada. Liguei para quem podia me passar as melhores informações sobre meu pai (os médicos - amigos, filha, filho), confirmei onde estavam as crianças (com uma amiga/irmã) e se já sabiam (não), coloquei os celulares para carregar, avisei meus chefes do trabalho, vi a necessidade de ir para Jaú.
Como não havia NECESSIDADE alguma (fora o meu coração de filha), não fui. Além do que, meu pai acabou me ligando e me pedindo para não pegar a estrada à noite. Mas eu já estava decidida que não pegaria. INFELIZMENTE, por mais frio e insensível que possa parecer, os meus dois pequenos, agora, só têm a mim. Então, não posso me dar ao luxo de correr riscos desnecessários, do tipo pegar o carro correndinho e ir para uma cidade há 80 km de distância, só pra ver, com meus próprios olhos, que meu pai estava bem machucado, mas não corria risco algum.
Não fui pra Jaú, na terça, também, porque a alta médica prometida não aconteceu e meu pai dormiu mais uma noite sob observação (e mais uma vez me pediu para não pegar a estrada). Conversando com a minha cunhada, achei melhor que as crianças não fossem levadas para ver o avô, na terça(no hospital), porque eu achava que seria melhor que eu estivesse por perto quando eles soubessem da história.
Isso porque, quando aconteceu o acidente do Fer, o Guigo chegou a questionar com algumas pessoas se "era verdade" que o pai dele tinha sofrido um acidente porque "ele tinha visto o carro e o carro não tinha nem um amassadinho". Daí, eu fiquei imaginando como seria para ele ouvir que o vovô tinha sofrido um acidente, mas que estava bem, apesar do carro todo amassado (PS: o Guigo A-M-A carros e provavelmente iria perguntar dele). Como seria???
Não sou profissional da área e o Guigo está fazendo acompanhamento com uma psicóloga EXCELENTE, aqui da nossa cidade. Eu não tive dúvidas e liguei pra ela. Contei o ocorrido e perguntei como deveria proceder. Ela me instruiu a eu mesma contar a notícia (como eu tinha imaginado), na casa do avô, com o avô lá, na frente das crianças. Para não dar tempo deles criarem nenhuma fantasia na cabecinha deles, nem nada. Para mostrar que, sim, todos estamos sujeitos a acidentes (sem falar isso, né?) e temos que ser cuidadosos, mas que as histórias podem ser diferentes.
Eu fiz exatamente isso. Cheguei em Jaú, fui ver meu pai (vai que EU tivesse uma crise?!), senti um embrulho no estômago quando vi a garagem vazia, mas não tive nada demais quando o vi na cama dele, com machucados nas pernas, pés e mãos. Aparentemente, por fora, ele não tinha se machucado muito mesmo (Deus abençoe os inventores do cinto de segurança e do airbag). Só depois busquei as crianças na minha cunhada e os levei para a casa do avô.
Chegando lá, eles correram pro quarto para dar beijos, como sempre fazem. O Guigo nem percebeu os machucados e foi se jogando na barriga do meu pai (dolorida, coitado!). Quando a Helena chegou abraçando as pernas, meu pai pediu que ela tivesse cuidado com os "dodóis" dele. E ela mandou: "-O que você fez?". Ele brincou, disse que tinha caído correndo (como uma criança faria) e eles morreram de rir. E ela perguntou, de novo: "- Não, sério. O que você fez?". Ele, que já tinha amenizado a situação, contou que tinha tido um acidente na estrada, tinha batido com um caminhão, mas que, agora, já estava tudo bem. E as crianças só ficaram falando que sairiam para um aniversário comigo, se ele não queria ir junto, se podiam tomar banho na banheira dele, etc... Enfim: o vovô sofreu um acidente, mas está bem, como a gente viu com os nossos próprios olhos. Então, vamos falar de coisas legais!
Eu fui jantar com os pequenos, feliz e aliviada por causa da reação ótima deles. Eles não tinham tido nenhum sentimento ruim, nenhum medo, nenhuma inquietação (como eu tive, sabendo do acidente e não vendo o meu pai). A simplicidade de vida deles me deu inveja...
No meio do jantar, toda a família (menos meu pai e minha mãe) reunida, e eu respondendo às perguntas: "como você está?", "como ficou sabendo?", "como fez com as crianças?". E, pra última pergunta, eu contei do aconselhamento com a psicóloga, do fazer questão de estar lá no momento em que eles soubessem da notícia, da reação ótima deles. E, de uma pessoa que eu considero MUITO e sempre me dá palavras muito sensatas, eu ouvi: "você não acha que exagerou, não?"
E aí... exagerei?
PS: um dos grandes problemas de ser viúva precoce é o de (graças a Deus) não ter parâmetros ou alguém a quem imitar. Não conheço, pessoalmente, ninguém na minha situação. Então, às vezes, não sei exatamente como deveria agir, o que dá certo, o que não dá... Mas, continuo tentando! Com um sorriso no rosto (porque esse SEMPRE dá certo).
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quinta-feira, 7 de abril de 2011
Um ano depois do acidente que mudou a minha vida (Diário da Mirys)
Eu sei: não é hoje. Já foi. Já passou. Dia 23 de janeiro. E eu estava longe, bem longe de casa...
Mas, hoje lendo o post de uma amiga, relembrei minhas sensações, as dúvidas, a insatisfação, a angústia... tudo, de novo. E resolvi escrever. Não estava preparada para escrever quando eu passei pelo 1o aniversário do meu luto. Talvez também não esteja, agora... Mas, pode ser que tenha alguém, aí do outro lado, passando pelo mesmo encerramento de ciclo e se perguntando tudo o que eu me perguntei... Então, pode ser que possa ajudar alguém (e lá vai Deus, mais uma vez, tirar algo de bom do meio dessa história tão triste!... Mas, ainda bem que é assim!).
No dia 23 de janeiro de 2010, eu perdi o Fer. Junto com ele, eu perdi meu rumo, meu amigo, meu norte, meu amante, meu porto seguro, minha referência, meus planos, o pai dos meus filhos. Os dias pareciam longos e sem sentido DEMAIS depois do acidente... parecia que a vida inteira tinha perdido a razão de ser (só porque eu tinha perdido a minha).
No dia 23 de janeiro desse ano, eu estava em Paris. Lugar onde planejamos ir assim que desse (o que a gente sabia que seriam nas minhas primeiras férias, que "coincidiram" de ser em janeiro). 1o lugar do exterior que a gente queria mostrar pras crianças. A "cidade da mamãe". Eu fui. Com as crianças, as malas, os planos, as alegrias e as tristezas. Mas, sem ele...
Naquele dia eu estava cercada de pessoas muito muito muito queridas e compreensivas. Daquelas que só com o olhar já sabem o que você quer ou não quer. "- Tudo bem, Mirys. Você não quer atender o telefone, então, me dá ele aqui". Era verdade: eu não queria. Mas precisava deixar o cel com alguém pois talvez os avós quisessem falar com os pequenos e eu não podia privar nem um lado, nem o outro, desse contato, nesse dia. Então, entreguei meu telefone...
Pra mim foi ótimo estar bem distante nessa data (o que, repito, não foi friamente calculado) porque eu não sabia como iria reagir. A nada! Era a montanha-russa emocional voltando com toda a força.
E se eu ficasse no Brasil e todo mundo lembrasse e todo mundo me ligasse??? Eu ia passar o dia ouvindo "eu sinto muito" (porque não há nada mais que os amigos possam dizer ou fazer... infelizmente) e falando "eu sinto muito também". E ponto. Não ia mudar absolutamente nada na minha situação. Então, seria melhor evitar o desgaste...
Mas, e se eu ficasse no Brasil e ninguém lembrasse (super plausível que ninguém se lembre, após um ano. Afinal, foi a MINHA vida que mudou. A dos meus amigos e queridos continuou normalzinha... graças a Deus!) e ninguém ligasse??? Podia ser que eu tivesse uma crise do tipo "ninguém me ama, ninguém me quer" ou "eu sou a única pessoa infeliz do mundo"...
Indo embora, para bem longe, eu fiz, sem querer, um favor para mim e para os meus amigos. Para mim: eu evitei o stress, a neura, as lembranças, a obrigação de passar no cemitério ver um túmulo com o relevo de um contra-baixo sobre ele. Para os outros: eu evitei o constrangimento. Até quem queria mentir para mim, conseguiu. Se alguém lembrasse dias e dias depois, poderia perfeitamente se sair bem com um "- Mirys, eu lembrei tanto, mas não consegui falar com você. Seu celular não pegava direito em Paris, talvez..." e a fatídica frase "- Eu sinto muito".
Aí, como Deus é muito bom e tem tudo (Ele sim) calculado e planejado, minhas primeiras férias saíram em janeiro. Eu não tinha dinheiro para comprar as 3 passagens, mas aos 47 min do segundo tempo, elas caíram quase R$ 2 mil de preço. E o lugar para ficar que eu não teria, apareceu num e-mail de uma moça que alugava apartamentos (e eu tive que ficar com o único que tinha - que era o único perfeito para mim). Como diz minha tia: "Deuscidências"...
E aí, que o dia 23, em si, passou tranquilo. Longe de tudo e de todos. Só pedi para não ficar em casa, nem para fazer nada marcante (tipo ir pra Disney). Queria um dia bom, um dia leve, um dia tranquilo, um dia feliz mas sem nada de especial. E foi exatamente isso que eu tive. Não chorei. Não sofri. Lembrei? Muito. Deu saudades? Horrores. Mas nada além do que eu já tivesse acostumada.
E no dia 24 veio o baque. Fiquei péssima! E a partir de então, continuei péssima. Destruída por dentro. Só por dentro. Por fora? Fui pra Disney. Brinquei, cantei, pedi autógrafo do Tigrão e do Remy. Peguei avião, comi minhas últimas comidinhas francesas, voltei pra casa.
E então eu percebi que o meu subconsciente continuava a me pregar peças. Eu nunca me pus prazo nenhum. Nunca achei que tinha direito a 365 dias de luto. Ou 180. Ou 3.650. Que eu só poderia querer outra pessoa depois de X tempo. Que eu somente seria a mãe/pai adequada depois de determinado lapso temporal. Eu, conscientemente, não fiz nada disso. Mas acho que minha cabeça fez.
Na minha cabeça, bem lá no fundo, acho que eu esperava o dia 23 de janeiro como um grande divisor de águas. Tipo: até aqui foi sofrimento, dor, choro, luta, vazio, saudades, sobrevivência. Depois de completar o 1o ano... ah! Depois disso, tudo voltaria a ser flores e todo o luto teria ficado pra trás. Como se eu ultrapassasse uma linha de chegada. Mas, na vida, não temos linhas de chegada: sempre que terminamos uma fase entramos automaticamente em outra. Antes de ser mãe/depois do bebê nascer; estudante/profissional; filha/esposa. A gente nunca "só" acaba. Sempre tem um depois. Que as pessoas, as coisas, os aprendizados, não se fazem de um dia para o outro. Que tudo se constroi dia após dia e que você tem que passar por cada etapa pacientemente. Só assim se faz o "todo", o completo, o acabado.
E eu precisei cruzar a minha ideia de linha de chegado do 1o ano para perceber que, enquanto eu corri para ultrapassa-la, alguém a afastava de mim.
Não vai ser assim, Miriane. Da noite pro dia. Do preto pro branco. Da dor para a alegria. Ainda terei muitos "cinzas", muitos momentos, muitas nuances, muitos "talvez", no meio do caminho. Até o dia em que eu cruzar a única linha de chegada verdadeira dessa vida - e for morar no céu. Ao lado de todos aqueles que aceitaram a Jesus como seu Salvador pessoal. E eu sei quem eu vou encontrar por lá...
OBS: força amiga!!! Amamos você e estamos aqui para o que der e vier. Aguente firme! Não se esqueça: TJ é sempre TJ! Bjos e bençãos.
Mas, hoje lendo o post de uma amiga, relembrei minhas sensações, as dúvidas, a insatisfação, a angústia... tudo, de novo. E resolvi escrever. Não estava preparada para escrever quando eu passei pelo 1o aniversário do meu luto. Talvez também não esteja, agora... Mas, pode ser que tenha alguém, aí do outro lado, passando pelo mesmo encerramento de ciclo e se perguntando tudo o que eu me perguntei... Então, pode ser que possa ajudar alguém (e lá vai Deus, mais uma vez, tirar algo de bom do meio dessa história tão triste!... Mas, ainda bem que é assim!).
No dia 23 de janeiro de 2010, eu perdi o Fer. Junto com ele, eu perdi meu rumo, meu amigo, meu norte, meu amante, meu porto seguro, minha referência, meus planos, o pai dos meus filhos. Os dias pareciam longos e sem sentido DEMAIS depois do acidente... parecia que a vida inteira tinha perdido a razão de ser (só porque eu tinha perdido a minha).
No dia 23 de janeiro desse ano, eu estava em Paris. Lugar onde planejamos ir assim que desse (o que a gente sabia que seriam nas minhas primeiras férias, que "coincidiram" de ser em janeiro). 1o lugar do exterior que a gente queria mostrar pras crianças. A "cidade da mamãe". Eu fui. Com as crianças, as malas, os planos, as alegrias e as tristezas. Mas, sem ele...
Naquele dia eu estava cercada de pessoas muito muito muito queridas e compreensivas. Daquelas que só com o olhar já sabem o que você quer ou não quer. "- Tudo bem, Mirys. Você não quer atender o telefone, então, me dá ele aqui". Era verdade: eu não queria. Mas precisava deixar o cel com alguém pois talvez os avós quisessem falar com os pequenos e eu não podia privar nem um lado, nem o outro, desse contato, nesse dia. Então, entreguei meu telefone...
Pra mim foi ótimo estar bem distante nessa data (o que, repito, não foi friamente calculado) porque eu não sabia como iria reagir. A nada! Era a montanha-russa emocional voltando com toda a força.
E se eu ficasse no Brasil e todo mundo lembrasse e todo mundo me ligasse??? Eu ia passar o dia ouvindo "eu sinto muito" (porque não há nada mais que os amigos possam dizer ou fazer... infelizmente) e falando "eu sinto muito também". E ponto. Não ia mudar absolutamente nada na minha situação. Então, seria melhor evitar o desgaste...
Mas, e se eu ficasse no Brasil e ninguém lembrasse (super plausível que ninguém se lembre, após um ano. Afinal, foi a MINHA vida que mudou. A dos meus amigos e queridos continuou normalzinha... graças a Deus!) e ninguém ligasse??? Podia ser que eu tivesse uma crise do tipo "ninguém me ama, ninguém me quer" ou "eu sou a única pessoa infeliz do mundo"...
Indo embora, para bem longe, eu fiz, sem querer, um favor para mim e para os meus amigos. Para mim: eu evitei o stress, a neura, as lembranças, a obrigação de passar no cemitério ver um túmulo com o relevo de um contra-baixo sobre ele. Para os outros: eu evitei o constrangimento. Até quem queria mentir para mim, conseguiu. Se alguém lembrasse dias e dias depois, poderia perfeitamente se sair bem com um "- Mirys, eu lembrei tanto, mas não consegui falar com você. Seu celular não pegava direito em Paris, talvez..." e a fatídica frase "- Eu sinto muito".
Aí, como Deus é muito bom e tem tudo (Ele sim) calculado e planejado, minhas primeiras férias saíram em janeiro. Eu não tinha dinheiro para comprar as 3 passagens, mas aos 47 min do segundo tempo, elas caíram quase R$ 2 mil de preço. E o lugar para ficar que eu não teria, apareceu num e-mail de uma moça que alugava apartamentos (e eu tive que ficar com o único que tinha - que era o único perfeito para mim). Como diz minha tia: "Deuscidências"...
E aí, que o dia 23, em si, passou tranquilo. Longe de tudo e de todos. Só pedi para não ficar em casa, nem para fazer nada marcante (tipo ir pra Disney). Queria um dia bom, um dia leve, um dia tranquilo, um dia feliz mas sem nada de especial. E foi exatamente isso que eu tive. Não chorei. Não sofri. Lembrei? Muito. Deu saudades? Horrores. Mas nada além do que eu já tivesse acostumada.
E no dia 24 veio o baque. Fiquei péssima! E a partir de então, continuei péssima. Destruída por dentro. Só por dentro. Por fora? Fui pra Disney. Brinquei, cantei, pedi autógrafo do Tigrão e do Remy. Peguei avião, comi minhas últimas comidinhas francesas, voltei pra casa.
E então eu percebi que o meu subconsciente continuava a me pregar peças. Eu nunca me pus prazo nenhum. Nunca achei que tinha direito a 365 dias de luto. Ou 180. Ou 3.650. Que eu só poderia querer outra pessoa depois de X tempo. Que eu somente seria a mãe/pai adequada depois de determinado lapso temporal. Eu, conscientemente, não fiz nada disso. Mas acho que minha cabeça fez.
Na minha cabeça, bem lá no fundo, acho que eu esperava o dia 23 de janeiro como um grande divisor de águas. Tipo: até aqui foi sofrimento, dor, choro, luta, vazio, saudades, sobrevivência. Depois de completar o 1o ano... ah! Depois disso, tudo voltaria a ser flores e todo o luto teria ficado pra trás. Como se eu ultrapassasse uma linha de chegada. Mas, na vida, não temos linhas de chegada: sempre que terminamos uma fase entramos automaticamente em outra. Antes de ser mãe/depois do bebê nascer; estudante/profissional; filha/esposa. A gente nunca "só" acaba. Sempre tem um depois. Que as pessoas, as coisas, os aprendizados, não se fazem de um dia para o outro. Que tudo se constroi dia após dia e que você tem que passar por cada etapa pacientemente. Só assim se faz o "todo", o completo, o acabado.
E eu precisei cruzar a minha ideia de linha de chegado do 1o ano para perceber que, enquanto eu corri para ultrapassa-la, alguém a afastava de mim.
Não vai ser assim, Miriane. Da noite pro dia. Do preto pro branco. Da dor para a alegria. Ainda terei muitos "cinzas", muitos momentos, muitas nuances, muitos "talvez", no meio do caminho. Até o dia em que eu cruzar a única linha de chegada verdadeira dessa vida - e for morar no céu. Ao lado de todos aqueles que aceitaram a Jesus como seu Salvador pessoal. E eu sei quem eu vou encontrar por lá...
OBS: força amiga!!! Amamos você e estamos aqui para o que der e vier. Aguente firme! Não se esqueça: TJ é sempre TJ! Bjos e bençãos.
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domingo, 27 de março de 2011
Era uma vez 11 - O acidente e a minha futura sogra (Diário da Mirys)
Então que nós dois éramos melhores amigos. Daqueles de dar carona, estudar pra prova, levar junto para a apresentação da banda (ainda não falei da turma de músicos do Fer, né?). De consolar quando briga com a namorada. De pedir ombro pra chorar, quando eu brigava com o meu namorado.
Eis que estávamos no final do segundo ano de faculdade e o Fer fazia tiro de guerra. Ôh época sombria para os meninos! Todos reclamam quando estão lá dentro. Todos sentem falta quando saem e classificam aqueles dias como "uns dos melhores da vida". E depois dizem que nós, mulheres, é que somos complicadas!!! Hã???
O Fer morava com a tia dele, fazia faculdade de manhã, estagiava à tarde, saía com seus primos quase toda noite e acordava todo dia seguinte às 5hs da madrugada, vestia farda e ia pro quartel.
Eu ia pra faculdade às 6:40hs, quando conseguia um carro, ou mais cedo, quando estava de carona. Podia ir pela avenida debaixo de casa (quase sempre porque lá passavam todos os ônibus circulares) ou pela de cima, que dava na mesma, pois as duas se encontravam lá na frente e acabavam na faculdade. Naquela manhã, eu estava de carro e fui pela avenida de cima.
Na esquina da minha rua com a avenida de cima, tinha ocorrido um acidente fortíssimo! Um carro tinha atravessado a avenida toda e batido numa árvore do outro lado, praticamente já no começo da minha rua. Era horrosoro! Tinha muita gente, ambulância, metal retorcido, etc. Não olhei muito para não ficar impressionada e segui para a faculdade.
Estávamos no meio de uma aula e alguém me mandou um bilhetinho: "o Fer sofreu um acidente de carro, agora de manhã, e está no hospital, não sei em que estado." Levantei e saí. Simples assim. Sem educação assim. Não pedi ordem, não avisei, não combinei. Levantei e fui. Quem quis, veio junto! Eu sabia, de algum jeito, que era aquele acidente horrível que eu tinha visto e, sinceramente, morria de medo do que pudesse ter acontecido.
Lembro de entrar no hospital com o Guilherme, um amigão nosso que estudava alguns anos à frente, mas que tinha entrado pra nossa turma. Eu corria pelos corredores e não achava o quarto ou alguém que desse informação! E o Guilherme me acalmando. Mas eu sabia o que tinha visto...
Achamos o quarto e a mãe do Fer estava lá. Foi assim que eu a conheci. Me apresentei e perguntei por ele. Não sei muito bem, mas ele não estava ali. Acho que ela falou que ele estava sendo suturado... Acho que era isso.
Ele tinha ido muito cedo para o tiro de guerra e não tinha comido. Descobrimos, meses depois, que aquele tinha sido o dia mais quente do ano. O Fer e um amigo do tiro (bjos, carinha! Saudades!) tinham ido cortar o cabelo antes da aula, pois teriam desfile de 15 de novembro dali uns dias e precisavam estar em ordem. Além disso, o sargento tinha mandado eles levarem mais algumas coisas em alguns lugares. Eles pegaram o fusca do Fer e foram. O Fer dirigia porque nosso amigo não sabia dirigir. Mas, o sol + a falta de comida + o esforço físico + o calor resultaram em um desmaio e o Fer "apagou" dentro do carro. Quando nosso amigo percebeu, o fusca ia em direção à traseira de um caminhão! Tudo o que nosso amigo conseguiu fazer foi puxar a direção para o outro lado, para desviar do caminhão! Então, o fusca atravessou toda a avenida (sorte que o semáforo estava fechado) e foi colidir com uma árvore do outro lado, no comecinho da minha rua!
Naquela época, o cinto não era obrigatório. Se era, o Fer não usava. Porque quando o fusca bateu na árvore, ele foi lançado para a frente (e só não saiu do carro porque nosso amigo estava com o corpo entre o Fer e o volante, puxando a direção). O vidro do carro quebrou e o limpador de para-brisas veio direto no pescoço do Fer. O bombeiro que o socorreu disse que ele tinha "dado muita sorte" porque o limpador tinha cortado o pescoço dele longe da jugular... por 2 ou 3 milímetros!!! OBS: pessoas que me lêem: please, usem o cinto de segurança! Ele existe para a sua própria segurança!!!
Enquanto o Fer não chegava no quarto, eu ficava pensando no que ia fazer, no que ia dizer, quando ele chegasse. Eu queria me preparar. Eu não queria ter um ataque de choro na frente do meu amigo! Ele já estava todo machucado, teria que se preocupar com um monte de coisas dele (as provas estavam chegando e ele perdeu um semestre da faculdade porque um dos professores não aceitou que ele fizesse prova em outro dia!), para se angustiar de uma amiga chorona.
Então... ele chegou! E eu fui na direção dele, serena, conforme combinado comigo mesma, para dar dois beijinhos e falar "oi. Tudo bem. Estamos aqui. Se precisar, é só falar. O que posso fazer para ajudar." Mas, quando olhei para baixo... não tinha onde beijar. O rosto dele era um monte de linhas pretas dos pontos que foram dados às pressas. Só que eu já ia em direção a ele e não podia voltar... Então, afastei os cabelos e dei um beijo na testa. Demorei, engoli em seco (para não chorar) e me levantei, de novo. O resto foi conforme o planejado: "oi. Tudo bem. Estamos aqui."
Me lembro que aquela foi a 1a (ou teria sido a 2a) vez que eu vi a namorada dele, também. Mas eu era só amiga, não estava fazendo nada demais, não sabia que ela tinha ciúme de mim. E tinham vários outros amigos e amigAs, lá no hospital, também.
Tempos depois, quando ficamos juntos, o Fer me disse que a mãe dele tinha me adorado, desde aquele dia. E que, a partir de então, começou a fazer uma torcidinha a meu favor. Uhuuuu! Só que ele não pensava em mim, assim... nem eu pensava nele, desse jeito... até...
Eis que estávamos no final do segundo ano de faculdade e o Fer fazia tiro de guerra. Ôh época sombria para os meninos! Todos reclamam quando estão lá dentro. Todos sentem falta quando saem e classificam aqueles dias como "uns dos melhores da vida". E depois dizem que nós, mulheres, é que somos complicadas!!! Hã???
O Fer morava com a tia dele, fazia faculdade de manhã, estagiava à tarde, saía com seus primos quase toda noite e acordava todo dia seguinte às 5hs da madrugada, vestia farda e ia pro quartel.
Eu ia pra faculdade às 6:40hs, quando conseguia um carro, ou mais cedo, quando estava de carona. Podia ir pela avenida debaixo de casa (quase sempre porque lá passavam todos os ônibus circulares) ou pela de cima, que dava na mesma, pois as duas se encontravam lá na frente e acabavam na faculdade. Naquela manhã, eu estava de carro e fui pela avenida de cima.
Na esquina da minha rua com a avenida de cima, tinha ocorrido um acidente fortíssimo! Um carro tinha atravessado a avenida toda e batido numa árvore do outro lado, praticamente já no começo da minha rua. Era horrosoro! Tinha muita gente, ambulância, metal retorcido, etc. Não olhei muito para não ficar impressionada e segui para a faculdade.
Estávamos no meio de uma aula e alguém me mandou um bilhetinho: "o Fer sofreu um acidente de carro, agora de manhã, e está no hospital, não sei em que estado." Levantei e saí. Simples assim. Sem educação assim. Não pedi ordem, não avisei, não combinei. Levantei e fui. Quem quis, veio junto! Eu sabia, de algum jeito, que era aquele acidente horrível que eu tinha visto e, sinceramente, morria de medo do que pudesse ter acontecido.
Lembro de entrar no hospital com o Guilherme, um amigão nosso que estudava alguns anos à frente, mas que tinha entrado pra nossa turma. Eu corria pelos corredores e não achava o quarto ou alguém que desse informação! E o Guilherme me acalmando. Mas eu sabia o que tinha visto...
Achamos o quarto e a mãe do Fer estava lá. Foi assim que eu a conheci. Me apresentei e perguntei por ele. Não sei muito bem, mas ele não estava ali. Acho que ela falou que ele estava sendo suturado... Acho que era isso.
Ele tinha ido muito cedo para o tiro de guerra e não tinha comido. Descobrimos, meses depois, que aquele tinha sido o dia mais quente do ano. O Fer e um amigo do tiro (bjos, carinha! Saudades!) tinham ido cortar o cabelo antes da aula, pois teriam desfile de 15 de novembro dali uns dias e precisavam estar em ordem. Além disso, o sargento tinha mandado eles levarem mais algumas coisas em alguns lugares. Eles pegaram o fusca do Fer e foram. O Fer dirigia porque nosso amigo não sabia dirigir. Mas, o sol + a falta de comida + o esforço físico + o calor resultaram em um desmaio e o Fer "apagou" dentro do carro. Quando nosso amigo percebeu, o fusca ia em direção à traseira de um caminhão! Tudo o que nosso amigo conseguiu fazer foi puxar a direção para o outro lado, para desviar do caminhão! Então, o fusca atravessou toda a avenida (sorte que o semáforo estava fechado) e foi colidir com uma árvore do outro lado, no comecinho da minha rua!
Naquela época, o cinto não era obrigatório. Se era, o Fer não usava. Porque quando o fusca bateu na árvore, ele foi lançado para a frente (e só não saiu do carro porque nosso amigo estava com o corpo entre o Fer e o volante, puxando a direção). O vidro do carro quebrou e o limpador de para-brisas veio direto no pescoço do Fer. O bombeiro que o socorreu disse que ele tinha "dado muita sorte" porque o limpador tinha cortado o pescoço dele longe da jugular... por 2 ou 3 milímetros!!! OBS: pessoas que me lêem: please, usem o cinto de segurança! Ele existe para a sua própria segurança!!!
Enquanto o Fer não chegava no quarto, eu ficava pensando no que ia fazer, no que ia dizer, quando ele chegasse. Eu queria me preparar. Eu não queria ter um ataque de choro na frente do meu amigo! Ele já estava todo machucado, teria que se preocupar com um monte de coisas dele (as provas estavam chegando e ele perdeu um semestre da faculdade porque um dos professores não aceitou que ele fizesse prova em outro dia!), para se angustiar de uma amiga chorona.
Então... ele chegou! E eu fui na direção dele, serena, conforme combinado comigo mesma, para dar dois beijinhos e falar "oi. Tudo bem. Estamos aqui. Se precisar, é só falar. O que posso fazer para ajudar." Mas, quando olhei para baixo... não tinha onde beijar. O rosto dele era um monte de linhas pretas dos pontos que foram dados às pressas. Só que eu já ia em direção a ele e não podia voltar... Então, afastei os cabelos e dei um beijo na testa. Demorei, engoli em seco (para não chorar) e me levantei, de novo. O resto foi conforme o planejado: "oi. Tudo bem. Estamos aqui."
Me lembro que aquela foi a 1a (ou teria sido a 2a) vez que eu vi a namorada dele, também. Mas eu era só amiga, não estava fazendo nada demais, não sabia que ela tinha ciúme de mim. E tinham vários outros amigos e amigAs, lá no hospital, também.
Tempos depois, quando ficamos juntos, o Fer me disse que a mãe dele tinha me adorado, desde aquele dia. E que, a partir de então, começou a fazer uma torcidinha a meu favor. Uhuuuu! Só que ele não pensava em mim, assim... nem eu pensava nele, desse jeito... até...
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