Estávamos em agosto de 2011, eu era viúva desde janeiro de 2010, e desde então, eu nunca mais tinha namorado com ninguém. Nem namoro de um dia ou uma noite!
Os meses tinham se passado e
eu tinha cuidado das crianças, mantido a família o mais próxima possível, curtido meus amigos e seus filhos, tentado ser uma boa mãe / filha / irmã / amiga / madrinha / etc e tal.
Eu não era esposa, namorada, noiva, sainte, ficante, caso, nada! De ninguém! E não ser alguma coisa, de alguém,
depois daqueles meses todos, tinha começado a me incomodar. E eu achei, em maio ou junho de 2011, que era hora de começar a abrir algumas gavetas. Mas como isso era difícil!!!
Como eu tinha perdido toda a prática nesse negócio de sair, olhar, ser olhada, criar relacionamentos, eu decidi começar pela estaca zero e fiz o que achava que deveria fazer:
pedi! Eu orava e orava, apresentando pra Deus todo o "curriculum" da pessoa que eu queria pra mim. Mas sempre terminava com o "SE e QUANDO" Ele quisesse... e como é duro esperar por esse "se" e esse "quando"...
Ainda ia demorar algum tempo pra
eu ter a minha crise final, lá do
outro lado do mundo, chegar na beira do abismo e falar: "tá! Agora vai!". E, como
eu disse que essa saga poderia se chamar "Enquanto Isso", ao invés de "Hora H", tenho que dizer que ENQUANTO eu estava nas minhas crises de "ninguém me ama, ninguém me quer", o H estava por perto e, naquele sábado, tinha nos
chamado pra dançar! Eu e a M, minha amiga. Ela aceitou! De cara! E eu pensei "por que não?". E fomos!
Eles (que estavam no mesmo carro) me seguiram até em casa, eu guardei o meu carro, entrei no carro dele e fomos, os 3, passear pela graaaaaaande Jaú. Me senti vivendo num mundo "à parte". Para onde quer que eu olhasse, eu não conhecia ninguém!!! Ou, se conhecesse, era algo do tipo: "nossa! A fulana! Ela estudou com a minha irmã (10 anos mais nova!!!!!), no pré primário!". Pois bem, a fulana do pré primário era, hoje, uma menina linda, de uns 20 e poucos anos, com aqueles cabelos / corpo / rosto / atitude que só as pessoas de 20 e poucos anos têm. E isso me lembrava que eu, EUZINHA, já tinha mais de 30!!! Aff... E como, na minha cabeça, NINGUÉM OLHAVA PRA MIM, eu devia estar com 30 anos...e um bagaço!
Eu olhava no espelho e me via igual. Não tinha engordado, nem emagrecido. O cabelo continuava lindo, leve e solto. As mesmas roupas de sempre me serviam. Nem uma ruguinha. Só a olheira (essa abençoada) é que tinha aparecido... mas nada que um corretivo não resolvesse. Em síntese, o espelho me dizia que eu NÃO estava tão mal assim. Mas eu tinha certeza de que ele mentia pra mim!!! Ah, espelho, seu danadinho!... Tentando me enganar, é?
Quando a gente estava chegando no estacionamento, eu louca pra entrar e dançar até não poder mais (há anooooos eu não fazia isso!), a M reclamou que estava "com uma imensa dor no pé, insuportável mesmo, e precisava ir pra casa naquele momento". Eu e o H insistimos, dissemos que ela não tinha falado nada disso antes... mas ela quis porque quis ir pra casa. E nós fomos levá-la. Depois que ela desceu, o H perguntou: "e a gente, Mirys? Nós vamos?". E lá fui eu
sabotar a minha noite, de novo... "H, não vai ficar chato você sair só comigo pra dançar?... Sei lá... Todo mundo conhece todo mundo em cidade pequena... Nós nunca saímos juntos, antes, e alguém pode imaginar coisas..." Mas ele me interrompeu e salvou minha noite: "Mirys, nós somos AMIGOS! E eu não tenho problema nenhum em sair pra dançar com uma AMIGA. Então, por mim, não tem nada de complicado. Se você não quiser sair por você, eu entendo e te levo pra casa. Mas, por mim, a gente tinha falado que ia dançar, a gente vai dançar. Com a M ou sem. Zero neuras, tá bom?"
Eu respondi "tá bom". Se ele estava tão tranquilo assim, eu também deveria ficar. Até porque, nunca tinha havido absolutamente nada entre a gente. Nem uma paquera, nem uma conversa "torta", nem um olhar dúbio. Nada. Éramos amigos! E as pessoas podem sair pra dançar com os seus amigos, não podem?
E nós dançamos, e conversamos, e ouvimos uma banda ótima, e... eu passei a noite "em branco", de novo! Ninguém, ninguém mesmo nem olhou pra mim!!! Ninguém passou do meu lado e "esbarrou" na minha mão. Ninguém veio me perguntar "de onde me conhecia". Ninguém me seguiu até o bar. Nada. Zero. Niente. Minha vida amorosa estava tão seca quanto o deserto do Saara, sob o sol do meio dia. O único que tinha chego perto de mim foi o H, que, quando queria falar comigo, vinha falar no meu ouvido, só por causa da altura da música do lugar... Pra não deixar a minha moral ir parar no dedão do pé, eu fingia que estava bem e fazia piadinhas de mim mesma pras amigas. E ia que ia!!!
Depois de uma certa hora, decidimos ir embora. Ele pagou a conta, nós fomos por carro e finalmente conseguimos conversar, fora do barulho ensurdecedor.
H: "Mirys, hoje eu descobri. Eu sei
qual é o repelente que você usa."
Eu fiquei roxa, azul, amarelo, verde limão, rosa caqui e comecei a procurar o primeiro buraco no chão para me enterrar como avestruz e não sair mais dali até o domingo, à noite!!! A piadinha do repelente era pras MENINAS!!! Com "A" no final da palavra!!! Era só pra descontrair pras amigas e não ter que ouvir todo um tratado dos "porques" de eu não estar saindo com ninguém... Eu sabia que fazia algo de errado, mas não sabia o que era e, honestamente, não sei se estava preparada pra saber. Mas o H não se importou e continou:
H: "O seu repelente, Mirys, é o "eye contact". Você não olha! Você não mantém o olhar! Vários caras passaram do seu lado, hoje, e teriam ficado com você SE VOCÊ TIVESSE OLHADO PRO LADO! Mas você só via a banda, em cima do palco. Você parecia anestesiada. Mais de um passou e quase, mas quase mesmo te beijou. Mas você nem percebeu... percebeu?"
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Foi assim que eu me senti. Em branco! Passada! Em alfa! O tempo parou e eu só conseguia pensar: "eu NÃO sou feia! Eu NÃO estou com olheiras terríveis, cabelo desgranhado e magra demais! Eu NÃO sou desinteressante! EU EXISTO! As pessoas olham pra mim! PRA MIM!!! Eu só estou fazendo um pequeno erro... só um!... Eu não olho!..."
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E, naquele branco, com a cabeça girando de tantas ideias juntas, eu só sei que o H. me levou pra casa. Parou na porta. Desligou o carro. Se ajeitou no banco e continuou a conversar comigo. "Mirys, você precisa olhar para as pessoas. E, se alguém te olhar, você tem que manter isso! Keep eye contact."
"H, desculpa, tá tarde, as crianças estão sozinhas (hello???? Na casa dos meus pais, com 12 pessoas, nunca, ninguém está sozinho!), meu pai pode estar preocupado, amanhã tem igreja, eu preciso entrar. Beijo. Tchau." (leia tudo CORRENDO porque foi assim que eu falei). Falei, pulei do carro, abri e fechei o portão de casa com uma rapidez impressionante e entrei. Repetindo meu novo lema: "keep eye contact! keep eye contact!" e me perguntando por que cargas d´água EU não tinha percebido isso antes??????
Enquanto isso, lá no carro, ficava um moço completamente desnorteado,
acostumado a ter total domínio sobre sua vida emocional (lembram-se das minhas amigas, que eu contei aqui?), sozinho, sem entender nada do que estava acontecendo. Algumas mosquinhas me contaram, depois, que ele queria ter me beijado naquela noite. Que ele olhou pra mim. Mas, eu não olhei de volta.... eu nem percebi!...
Cenas do próximo capítulo
aqui.